CRISPR: a técnica que está revolucionando a medicina – e o mundo

Lá nos idos de 2016 começou a saltar no meu browser um ‘diacho’ de um nome esquisito sobre uma técnica promissora em genética. Eu estava procurando já por coisas que me incomodavam a respeito de modificações profundas que vinham ocorrendo na humanidade, no que ainda eu não conseguia reconhecer como a Revolução 4.0. Esse negócio com nome exótico, entre tantos outros que a medicina chamada tradicional não havia nos ensinado na faculdade, chamava-se CRISPR.

CRISPR, em inglês, é o acrônimo de Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats, ou seja, Repetições Palindrômicas Curtas Agrupadas e Regularmente Interespaçadas. Mas o que será isso, e por que tem tanta importância? – e aqui tentaremos não falar “genetiquês”.

Essa técnica tem o potencial de ressuscitar espécies em extinção, modificar as características de plantas e animais (de modo que os tornem resistentes a doenças, e até se provoquem defeitos em insetos para que deixem de ser vetores de doenças), mas o que mais impressiona é a capacidade potencial de curar doenças.

A técnica nasceu da observação da capacidade que bactérias (no caso a E.coli) tinham de se adaptar geneticamente, editando seu próprio código genético para resistir, por exemplo, ao ataque de vírus bacteriófagos. Descobriu-se uma nuclease (que tem o efeito de tesoura e cola no código genético), dentre as várias capaz de promover a edição genética bacteriana, literalmente recortando o gene que tornava a bactéria suscetível e colocando um gene resistente no local. Essa nuclease chama-se Cas9. Hoje já se reconhecem outras e se conseguem verdadeiros prodígios com a técnica.

Só a título de curiosidade, descobriu-se que até vírus usam dessas artimanhas, sendo o modelo atual estudado o do microscopicamente gigante Mimivírus – isso mesmo, Mimivírus!.

Então, o que parecia muito bom, recortar genes defeituosos e colar os corretos, ficou tecnicamente melhor: corrigir os defeitos de maneira ainda mais precisa, agora editando os genes sem o “efeito tesoura”, mas como uma borracha e lápis, reescrevendo a sequência genética correta, no que se chama CRISPR 2.0 e suas variantes atuais.

Fato é que no início desse ano, um professor/pesquisador chinês, Hi Jiankui, mesmo sem autorização, ‘fez’ bebês geneticamente modificados – saiba mais neste link –, com capacidade de não adoecer pelo vírus do HIV. Foi uma verdadeira bomba na sociedade científica internacional, pois pelo senso comum e obviedade científica, muitos testes ainda deveriam ocorrer para que se iniciassem fases clínicas de manipulações tão profundas como essa. Mas é certo que a China está se tornando a grande estrela mundial na técnica,  e não somente na medicina, mas em áreas como a agricultura.

Nos Estados Unidos, os primeiros ‘trials’ em humanos começaram na Universidade da Pensilvania, usando a técnica para acelerar outro método promissor, o chamado CAR-T, que consiste em melhorar o desempenho de funcionamento de células de defesa chamadas linfócitos T. Esse método foi um destaque na última semana no Brasil, após o anúncio da cura de um paciente com câncer terminal, pela equipe pesquisadora de terapia celular do Hemocentro da USP de Ribeirão Preto.

Assim, esforços no mundo inteiro estão acontecendo para que se teste a técnica em humanos com doenças genéticas como a anemia falciforme, cegueira congênita, doenças neurológicas e cânceres.

Os testes e resultados têm se mostrado promissores e merecem um olhar cuidadoso das sociedades científicas, que estão tendo de mudar um pouco como se relacionam com prazos e acontecimentos. O que há de novo nessa era ‘exponencial’, da chamada 4ª revolução industrial, é que o conjunto de habilidades e conhecimentos das mais variadas áreas, aplicados num propósito específico, atrelados à ousadia de empreendedores cientistas, fundando Star-tups, causam disrupção. Nesse caso específico, a disrupção está sendo uma quebra total de paradigma na medicina: o que antes tinha-se como incurável, passa agora a ter perspectivas de cura e o que é melhor, quem é tratado passa a ter genes novos ‘curados’, inclusive para futuras proles.

Como citado, é o conjunto de múltiplos conhecimentos acadêmicos, associado ao inconformismo e ousadia de empreendedores, notadamente Startups e capital, muito capital, que veem fazendo toda a diferença. A exemplo disso, a Beam Therapeutics, uma StarTup madura, que recebeu mais de USD200milhões em investimento, já apresenta um amplo portfólio de produtos com várias soluções em fase pré-clínica. Esse é apenas um exemplo de uma plêiade de Startups e esforços que começam a aparecer para mudar como encaramos a medicina.

Os profissionais de saúde do futuro trabalharão num nível tão profundo, que terão em suas mãos muito mais que a medicina reativa e preventiva, mas a preditiva, podendo ser feito um verdadeiro `hackeamento` do ser humano e sua saúde. Como os futurólogos Peter Diamandis e Ray Kurszweil costumam dizer, podemos nos tornar virtualmente imortais.

Alexandre Parmahttp://www.infohealth.com.br
Médico Radiologista e entusiasta de tecnologia.

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