As fake news estão afetando a vacinação no Brasil?

Aproximadamente 67% dos brasileiros acreditam em ao menos uma afirmação imprecisa sobre vacinação, segundo o estudo “As Fake News estão nos deixando doentes?”, promovido pela Avaaz em parceria com a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

A pesquisa examinou o papel das informações incorretas, difundidas principalmente por redes sociais e aplicativos de mensagens, na redução das taxas de cobertura vacinal no país, que atingiu os níveis mais baixos, após 16 anos, em 2017.

As fake news tornaram-se uma ameaça em todo o mundo, principalmente no Brasil. Uma pesquisa do Instituto Ipsos, realizada em 27 países, revelou que os brasileiros acreditam em notícias falsas mais do que a maioria das pessoas no mundo.

De acordo com dados do Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde (PNI-MS), nos últimos dois anos, as coberturas vacinais entre menores de 1 ano de idade foram inferiores ao mínimo desejado. O período crítico começou em 2017, quando 25% da população em risco de contrair febre amarela, a maioria crianças, não foi vacinada. A situação preocupa profissionais da saúde e governantes, pois o problema continua crítico: apenas 88% da população-alvo foi vacinada contra o sarampo em todo o país em 2019, sendo que o percentual mínimo para a eliminação desta doença é 95%.

Essas descobertas alertaram para um perigo: a desinformação parece afetar a percepção em relação à segurança das vacinas.

Para chegar no resultado, o IBOPE realizou a pesquisa presencial e domiciliar com 2.002 brasileiros com 16 anos ou mais. A margem máxima de erro é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos sobre os resultados encontrados no total da amostra. O nível de confiança é 95%.

Principais descobertas

Entre os entrevistados, 13% afirmaram que não se vacinaram ou não vacinaram uma criança sob seus cuidados, o que totaliza 21.249.073 brasileiros. Os principais motivos citados foram a falta de planejamento ou esquecimento, a falta de informação e o medo de efeitos colaterais graves.

Para identificar se os entrevistados acreditaram em desinformação sobre vacinas, a Avaaz forneceu uma lista dos mitos mais relatados sobre vacinação ouvidos pelos médicos, de acordo com a SBIm. Quase sete em cada dez brasileiros (67%) acreditaram em pelo menos uma declaração factualmente imprecisa sobre vacinas – identificando pelo menos uma como um fato verdadeiro.

O total de 57% dos entrevistados que não se vacinaram ou não vacinaram uma criança citaram uma afirmação que é considerada falsa pela SBIm e a OMS. Por exemplo: que as vacinas têm grandes chances de causar efeitos colaterais graves ou que as vacinas não são necessárias.

As redes sociais e os aplicativos de mensagens estão entre as principais fontes de informação sobre vacinas, afirmaram 48% dos entrevistados. São o segundo meio mais usado para se informar sobre o tema. A proporção de pessoas que acreditam em desinformação sobre vacinas é maior entre os que usam redes sociais e/ou WhatsApp como fonte de informação – 73% contra 60% para quem cita outras fontes.

“O que os números demonstram é a falta de conhecimento prévio para fazer um julgamento adequado do que é correto e incorreto. Precisamos ter a mesma disponibilidade para ensinar e esclarecer do que quem dissemina inverdades. Se não nos empenharmos, é possível vislumbrar um cenário perigoso. O retorno do sarampo já demonstrou isso”, afirma o presidente da SBIm, Juarez Cunha.

Veja mais resultados da pesquisa aqui.

Desinformação vem dos Estados Unidos  

Segundo a pesquisa, uma proporção significativa dos conteúdos analisados foi publicada ou criada por sites que publicam artigos negativos ou desinformativos sobre vacinas junto com links para curas “milagrosas” e outros produtos de saúde alternativos.

A descoberta mais significativa foi o discurso antivacinação que circula no Brasil é um problema importado dos Estados Unidos.

Quase metade da amostra original de fake news foi traduzida literalmente ou com base em informações originalmente publicadas, em inglês, nos Estados Unidos. O site “Natural News” é a fonte original de 32% da amostra e representa 69% do conteúdo não brasileiro. Os outros conteúdos eram nativos do país.

Esses conteúdos se multiplicaram nas redes: foram compartilhados em YouTube, Facebook, WhatsApp e sites – atingindo pelo menos 2,4 milhões de visualizações no YouTube, 23,5 milhões de visualizações no Facebook (apenas vídeos) e 578.000 compartilhamentos no Facebook.

A Avaaz descobriu que, de 2016 para cá, as páginas que mais geraram interação nas redes sociais foram:

  1. Cruzada Pela Liberdade – 762 mil interações / 350 mil seguidores;
  2. Grupo O Lado Obscuro das Vacinas – 64 mil interações / 13 mil membros / mais de 1.970 posts; e
  3. Contra Nova Ordem Mundial – 54 mil interações / 22 mil seguidores.

Algumas das desinformações antivacinação mais recorrentes no estudo foram:

  1. A crença de que as vacinas obrigatórias são um plano secreto e maligno da “nova ordem mundial” para dominar a sociedade;
  2. Relação entre vacinas e autismo;
  3. Alegações de que metais nocivos, como mercúrio, estão presentes em vacinas em alta dosagem;
  4. Argumentos de que as vacinas prejudicam o corpo, enquanto terapias e produtos naturais seriam a verdadeira maneira de prevenir doenças;

Para combater as Fake News sobre saúde, o Ministério da Saúde disponibiliza um número de WhatsApp para envio de mensagens da população. O canal é um espaço exclusivo para receber informações virais, que serão apuradas pelas áreas técnicas e respondidas oficialmente se são verdade ou mentira.

Qualquer cidadão pode enviar gratuitamente mensagens com imagens ou textos que tenha recebido nas redes sociais para confirmar se a informação procede, antes de continuar compartilhando. O número é (61)99289-4640.

Isadora Osório Silveira
Jornalista pela ESPM-Poa. Entusiasta por desafios, evolução e networking. Atualmente, em especialização na área da saúde e bem-estar.

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