Combate à doença de Chagas terá investimento de US$ 20 milhões

Em todo o mundo, estima-se que cerca de 6 a 7 milhões de pessoas estejam infectadas com Trypansosoma cruzi, o parasita causador da doença de Chagas, resultando em mais de 10.000 mortes anuais. A doença é encontrada principalmente em áreas endêmicas de 21 países da América Latina continental, onde causa mais mortes do que qualquer outra doença transmitida por parasitas, incluindo a malária.

A maioria dos casos ocorre geralmente nas comunidades mais pobres e marginalizadas, por contato com fezes ou urina de insetos triatomíneos, conhecidos como “barbeiros”, entre outros nomes populares, dependendo da área geográfica.

A partir disso, a Central Internacional para a Compra de Medicamentos contra a AIDS, Malária e Tuberculose (Unitaid, sigla em inglês) publicou, nesta segunda-feira (25), um edital para a contratação de pesquisas visando a eliminação da infecção congênita da doença de Chagas e o desenvolvimento de estratégias e de ferramentas para a prevenção, diagnóstico e tratamento.

A entidade, criada pelo Brasil, Chile, França, Noruega e Reino Unido, vai aportar US$ 20 milhões, mais de R$ 80 milhões, conforme cotação do Banco Central, para redução da transmissão materno-fetal, tratamentos mais ligeiros e formulação de medicamentos com menos efeitos colaterais do que os utilizados, que é nitroderivados Benznidazole (disponível no Brasil) e Nifurtimox (equivalente usado em outros países). 

A expectativa da agência financiadora, que é parceira da Organização Mundial da Saúde (OMS), é que instituições de pesquisa de mais de um país façam consórcios para a busca de soluções. No Brasil, além da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Instituto Butantan, universidades públicas têm pesquisa avançada na área. Essas instituições de pesquisa mantêm convênios com outros centros de excelência na Argentina, Bolívia, Colômbia e Peru. 

“Essas grandes instituições possuem maior capilaridade no sentido de articular uma proposta nessa magnitude”, ressalta o diretor do Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, Júlio Henrique Rosa Croda, em entrevista para a Agência Brasil. 


Sinais e sintomas

A doença de Chagas se apresenta em duas fases: a fase aguda e a fase crônica.

A primeira dura cerca de 2 meses após a infecção. Nesta fase, um alto número de parasitas circula no sangue, mas na maioria dos casos não existem sintomas ou são leves e inespecíficos. Em menos de 50% das pessoas picadas, os primeiros sinais visíveis característicos podem ser uma lesão na pele ou um inchaço arroxeado das pálpebras de um olho. 

Segundo o Ministério da Saúde, na fase aguda, os principais sintomas são:

  • febre prolongada (mais de 7 dias);
  • dor de cabeça;
  • fraqueza intensa;
  • inchaço no rosto e pernas.

Durante a segunda fase, a fase crônica, os parasitas estão ocultos principalmente no coração e nos músculos digestivos. Até 30% dos pacientes sofrem de distúrbios cardíacos e até 10% sofrem de alterações digestivas, neurológicas ou mistas. Nos últimos anos, a infecção pode levar à morte súbita devido a arritmias cardíacas ou insuficiência cardíaca causada pela destruição do músculo cardíaco e de seu sistema nervoso.

Na fase crônica, a maioria dos casos não apresenta sintomas, porém algumas pessoas podem apresentar:

  • problemas cardíacos, como insuficiência cardíaca;
  • problemas digestivos, como megacolon e megaesôfago.

Tratamento

O tratamento da doença de chagas deve ser indicado por um médico, após a confirmação da doença. O remédio (benznidazol), é fornecido pelo Ministério da Saúde, gratuitamente, mediante solicitação das Secretarias Estaduais de Saúde e deve ser utilizado em pessoas que tenham a doença aguda assim que ela for identificada. 

Adultos infectados, especialmente aqueles sem sintomas, devem receber tratamento porque o tratamento antiparasitário também pode prevenir ou conter a progressão da doença e a transmissão para o bebê em mulheres grávidas. Em outros casos, os benefícios potenciais da medicação na prevenção ou atraso no desenvolvimento da doença de Chagas devem ser ponderados em relação à duração do tratamento (até 2 meses) e às possíveis reações adversas (que ocorrem em até 40% dos pacientes tratados).

Em casos de intolerância ou que não respondam ao tratamento com benznidazol, o Ministério da Saúde disponibiliza o nifurtimox como alternativa, conforme indicações estabelecidas em Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas.

A OMS indica que o benznidazol e o nifurtimox não devem ser tomados por mulheres grávidas ou por pessoas com insuficiência renal ou hepática. Nifurtimox também é contra-indicado para pessoas com histórico de distúrbios neurológicos ou psiquiátricos. 

Ainda sobre a avaliação do diretor Júlio Croda, a falta de visibilidade da população dificulta o combate à doença e o desenvolvimento de um melhor tratamento. “O acesso ao diagnóstico não é fácil. Por isso esse investimento. A gente quer desenvolver um teste igual ao do HIV. Aquele teste rápido. Que possa ser feito na atenção primária, e possa ter resposta no mesmo momento.” 


A Universidade de Brasília desenvolveu o aplicativo Triatodex, que também tem por objetivo a identificação de triatomíneos até nível de espécie. Ainda, contém informações sobre distribuição geográfica, tamanho, habitats e importância médica das espécies encontradas.

Isadora Osório Silveira
Jornalista pela ESPM-Poa. Entusiasta por desafios, evolução e networking. Atualmente, em especialização na área da saúde e bem-estar.

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