Como a genética influencia o acúmulo de gordura abdominal

Com o passar dos anos a preocupação em ter um corpo saudável e dentro de um contexto de peso saudável vem aumentando. Paralelo a isso, vemos o aumento de pessoas que procuram os serviços de nutrição devido o acúmulo de gordura na região central do corpo.

O acúmulo de adiposidade central é uma forma particular de distribuição da gordura corporal na qual se localiza na zona do abdômen/barriga. É esse padrão de acúmulo de gordura que gera aquela famosa barriguinha.

É importante salientar que existem dois tipos de gordura abdominal: a primeira, chamada de subcutânea, se localiza diretamente abaixo da pele e dentro de um contexto saudável, apresenta várias funções como o isolamento térmico e é responsável por oferecer um tônus ou toque saudável para a pele. Já o segundo tipo de gordura é a visceral, que se encontra em torno dos órgãos, na cavidade intra-abdominal. Esta última constitui um importante fator de risco de alteração metabólica e é considerada um marco para o desenvolvimento de comorbidades como a resistência à insulina.

Existem pessoas que naturalmente apresentam a predisposição de acumular gordura na temida região abdominal. E, nesse contexto, a genética apresenta fatores de peso, no qual vários genes conseguem contribuir para que esse acúmulo seja intensificado. Abaixo, separei alguns genes que, quando apresentam polimorfismos em um único nucleotídeo, ou seja, mutações em pequenos detalhes dos nossos genes colaboram para essa alteração.

APOA1

A apoliproteína APOA1 é o principal componente proteico da lipoproteína de alta densidade (HDL). A proteína APOA1 é sintetizada no fígado e colabora para a manutenção do HDL, o colesterol bom. Encontra-se envolvida no transporte reverso do colesterol, promovendo o efluxo de colesterol livre e fosfolípidos das células. Algumas alterações nesse gene podem promover uma maior tendência para um Índice de Massa Corporal (IMC) elevado, acúmulo de gordura abdominal e resistência à insulina.

APOB

A apolipoproteína APOB-100 mantém a integridade das partículas de colesterol LDL (LDL-C) e promove a sua eliminação da circulação sanguínea, pessoas que apresentam alterações nesse gene tem uma maior tendência para o acúmulo de gordura abdominal e para a resistência à insulina. E, nesse caso, o consumo elevado de gordura saturada (a gordura presente nas carnes com gordura, queijos amarelos e manteiga) apresenta impacto mais significativo a essa característica.

FTO

A proteína FTO tem um papel importante na regulação do peso corporal, do consumo de energia, do apetite e da sensação de saciedade. Vários estudos associam consistentemente as variantes do gene FTO a suscetibilidade para Índice de Massa Corporal (IMC) elevado, sendo o gene com a correlação mais forte e mais replicada entre estudos. Algumas mutações aumentam a propensão sobre a quantidade de comida ingerida, para IMC elevado e para a acúmulo de gordura abdominal. Para esses casos, existem evidências de que uma dieta rica em proteínas lhes é particularmente benéfica como estratégia para redução do apetite. A prática de exercício físico também é uma ótima estratégia para atenuar o impacto da variante sobre o acúmulo de gordura abdominal, que é exacerbado pelo sedentarismo.

LYPAL1

A proteína LYPAL1 hidrolisa substratos como ácidos graxos de cadeia curta. Os estudos de metanálise indicam que mulheres portadoras de algumas mutações nesse gene apresentam uma predisposição para valores mais elevados de relação cintura-quadril. Não é observado um efeito significativo em homens.

MSRA

A proteína MSRA está associada ao reparo de danos oxidados em proteínas do nosso corpo, restaurando sua atividade biológica. Estudos de meta-análise indicam que os indivíduos portadores de mutações no gene MSRA têm uma predisposição para maior acúmulo de gordura abdominal.

PCSK1

A enzima PCSK1 regula a homeostase de hormônios envolvidos no controle do apetite, particularmente a insulina (metabolização da glicose) ou a pró-opiomelanocortina (controle de saciedade). Os estudos de associação indicam que os indivíduos portadores de algumas mutações nesse gene têm maior tendência a apresentar um Índice de Massa Corporal (IMC) mais elevado. Essas mutações também associadas a uma maior circunferência de cintura.

TFAP2B

A proteína TFAP2B, particularmente abundante nos adipócitos (células de gordura), é um regulador da expressão genética com influência sobre o transporte de glicose e o metabolismo de lipídios. Os estudos de meta-análise e de associação genótipo-fenótipo indicam que mutações nesse gene têm sido associadas a predisposição para um Índice de Massa Corporal (IMC) mais elevado e para o acúmulo de gordura abdominal.


A associação dos vários genes citados contribui para um bom entendimento das predisposições genéticas do paciente. Diante disso, o teste genético é um ótimo aliado para que possamos traçar os melhores caminhos em saúde para o paciente. Genética não é destino, então o resultado deve ser interpretado pensando nos próximos passos que devem ser seguidos pelos pacientes.

Do mesmo jeito que os estudos apontam as tendências, também já se pode escolher as melhores estratégias para reduzir essas propensões. É isso que faz um atendimento personalizado ser tão importante para a saúde humana. É escolher o melhor caminho e as melhores ferramentas para que a busca pela saúde e/ou pela redução de gordura abdominal seja mais tranquila e assertiva.

Lázaro Medeiros
Mestre em Bioquímica e Biologia Molecular. Nutricionista — Genômica nutricional. Instituto Assaly — Medicina personalizada.

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