O futuro já impacta na mudança dos serviços de saúde

Recentemente, a consultoria KPMG publicou um estudo sobre a Saúde em 2030, tendo o primeiro artigo com o título “o paciente como consumidor”, afirmando que nos próximos 10 anos “o setor de serviços de saúde irá enfrentar profundas transformações que impactarão de maneira dramática quais serviços serão necessários e como eles serão realizados”.

Um dos pontos inicias é o número de aposentados, os chamados Baby Boomers, em conjunto aos pacientes mais jovens, como a geração Millennials, influenciando o modelo de realização e experiência com os serviços de saúde, apontando para a “tendência crescente no sentido de buscar tratamento médico fora dos hospitais, em locais de atendimento de menor custo e de maior conveniência”, como seriam as clinicas de consultas ou a telemedicina/teleatendimento por  médicos e outros profissionais de saúde.

É sabido que o controle dos custos está diretamente ligado a medidas de prevenção e promoção à saúde, ou mesmo intervenções precoces. Entretanto, o desperdício é um ponto crucial para mudar o cenário da saúde atual. Será que todos os exames, procedimentos e consultas realizadas são realmente necessárias? E todo o custo envolvido neste movimento é levado em consideração? Refiro-me ao tempo das para o deslocamento e realização destes eventos, a exposição à radiação, o impacto emocional de falsos positivos, ou investigações intermináveis e a saga por diversas especialidades médicas e outros profissionais de saúde para diagnosticar algo sem impacto relevante à saúde.

Será que o paciente, se se considerasse um consumidor, não teria um papel menos coadjuvante no seu tratamento de saúde, como provavelmente faz ao definir suas compras, dívidas e demais gastos mensais, evitando o consumismo excessivo?  O estudo da KPMG Saúde 2030 lembra que a lógica do paciente como consumidor na área de saúde “é algo complicado, dada a cobrança emocional da doença e a complexidade do sistema de realização de serviços”, e sugere que uma solução pode ser “a implementação de modelos assistenciais embasados em uma atenção primária fortalecida e com navegação do paciente em um sistema de saúde integrado, dentro de um modelo assistencial centrado no usuário”.

Talvez um pouco mais arrojado, mas importante a ser considerado o ponto de vista de Peter Diamandis, co-fundador da Singularity University e da Human Longevity Inc., autor do livro recém lançado “The future is faster than you think” (“O futuro é mais rápido do que você pensa”, ainda sem versão em português) que defende que as pessoas não pagarão mais planos de saúde em um futuro próximo, mas sim, contratarão tecnologias que utilizando inteligência artificial e outros recursos de big data. Sistemas que coletarão seus dados de saúde, “sua composição genética, seu histórico de saúde, o que você comeu no café da manhã, as bactérias em seu intestino, como você dormiu na noite passada, que tipo de som você está exposto todos os dias”, para identificar seu potencial de desenvolver alguma doença e sugerir cuidados antes que o problema se torne real ou intratável.

Seria este um novo modelo de assistência à saúde? A tão falada medicina preditiva? E nesta lógica, quanto mais pessoas utilizarem estes recursos, mais informações terão, gerando um grande banco de dados genéticos, permitindo uma maior precisão nas sugestões de prevenção e tratamento. Seria a evolução do “Dr. Google”?!.

Em entrevista à Fast Company, o autor afirma que o sistema de saúde mundial está quebrado, e que modelos de tecnologia como estes já estão sendo testado por empresas como Apple, Google e Amazon como capacidade de trazer resultados muito melhores do que os encontrados hoje em qualquer tratamento de saúde, e que isto seria “centenas, senão milhares de vezes mais barato”.  Para os céticos, existe evidência que estas gigantes de tecnologia estão investindo no segmento de saúde. Ano passado foi noticiado que a Google coletou dados de saúde de milhares de americanos, a Amazon adquiriu recentemente uma startup de saúde.


Existe solução para os crescentes custos com saúde?

Coronavírus e a indústria de novas tecnologias em saúde


Todos atuantes no segmento de saúde, prestadores, operadoras, médicos, empregadores e pacientes (ou consumidores), já entenderam que é preciso mudar. Além da inclusão das tecnologias preditivas, mas algo que envolva transparência, agilidade e colaboração coletiva, promovendo saúde, a prevenção e o bem estar das pessoas.

Todos os players da cadeia de valor sabem da responsabilidade de cada um, e percebem que existe um longo caminho a percorrer para que seja possível se reinventar. Inclusive a Agencia Nacional de Saúde Suplementar (ANS) divulgou há poucas semanas o Projeto Modelos de Remuneração Baseados em Valor que “prioriza a melhoria da atenção à saúde e, como consequência, a sustentabilidade do sistema” e tenta estimular as operadoras a atuarem com ações que valorizem mais “a relação entre os resultados para os pacientes (desfechos clínicos) e o custo para atingir esses resultados”.

Utilizar a tecnologia para viabilizar atendimentos, reduzir custos, coletar dados é possível e real, movimento que estamos presenciando diversas empresas se aventurarem. No entanto, somos humanos e cada vez mais carentes de contato presencial e relacionamentos.

Uma afirmação importante no que tange a saúde das pessoas, pois todas as tecnologias e soluções elencadas acima tornam-se muito mais complexas, inclusive considerando os dados do relatório Adoecimento mental e trabalho: a concessão de benefícios por incapacidade relacionados a transtornos mentais entre 2012 a 2016, publicado em abril de 2017 (ultima publicação do Ministério da Fazenda sobre o assunto), divulgando que cerca de 9% dos auxílios-doença e aposentadorias por invalidez são gerados por transtornos mentais e comportamentais. Mas isto é assunto para o próximo artigo.

Diana Indiara Ferreirahttps://infohealth.com.br
Mestre em gestão e negócios pela Unisinos e em Administration des Enterprises pela Université de Poitiers (França). Especialista em Gestão de Saúde, com Pós-MBA em negociação e em Inteligência Competitiva.

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