Longevidade na era 4.0

Já há mais de uma década o futurólogo Ray Kurzweil e o entusiasta da longevidade, Aubrey de Gray vem falando sobre o alongamento da vida pra muito mais dos 100 anos. Apesar de todo o estardalhaço feito em apresentações que viraram clássicos e saquinhos de pílulas anti-aging tomadas em público, estamos muito longe dos 5.000 anos de longevidade alardeados. Mas seria isso impossível? Um ‘talvez’ é, talvez (rsrs), a resposta mais adequada.

Fato é que depois de uma década e muitas pesquisas, resultados laboratoriais e testes com animais, além de relatos de bons resultados isolados em pessoas, muita coisa nova surgiu. O pesquisador ‘da vez’ é David Sinclair, que acaba de lançar o best seller Lifespan: Why We Age and Why We Don’t Have To (em tradução livre, algo como – Longevidade: Porque nós envelhecemos e porque não precisamos).

Uma das maiores novidades é uma mudança de paradigma: seria o envelhecimento uma doença? Segundo novas pesquisas, sim! Aliás, um bem grifado e obeso, sim! Se passarmos a tratar o envelhecimento como doença, poderíamos gastar bem menos, justamente, com doenças. O pensamento é simples, por exemplo: se você fumar, aumenta em até cinco vezes, ou mais, a chance de ter câncer de pulmão e outros tantos – mas à medida que envelhecemos, aumentamos muito, e muito mesmo, a chance de ter doenças como essas.

Se pensarmos que nosso DNA é uma trilha de informações que faz cópias de si mesmo, é fácil entendermos que à medida em que mais e mais cópias são feitas, vai ocorrendo o desgaste dessas trilhas. Seria como uma fita K7 (pesquisem no Google o que é isso), fazendo novas fitas K7, milhares de vezes. Erros começam a ocorrer e lógico, a centésima cópia acaba não sendo tão igual à primeira. Na prática, nosso DNA envelhece, nossas células e suas organelas, bem como a parede das mesmas passam a não ser mais tão eficazes como na nossa infância. Até que, bum! Um erro fatal ocorre e uma célula desgovernada passa a produzir uma substância nociva ou até se torna outra célula: um câncer, por exemplo.

Logo, se pudermos conservar nosso DNA e os processos metabólicos, fazendo com que sempre sejam como eram lá em nossa infância, poderemos nem adoecer e quem sabe, adiar a famigerada foice da mulher do barqueiro do além, a dona morte. Mas como fazer isso?

Na prática, temos uma nova ciência, chamada epigenética, a qual leva em conta fatores comportamentais, como alimentação, sono, mudança do estado mental, atividade física e outras ‘cositas’ mais, que influenciam comprovadamente a expressão de genes impressos em nossos DNAs. Por exemplo, se você tem um gene que está relacionado a um câncer específico, não necessariamente você expressará tal gene e consequentemente terá esse câncer, caso se comporte de maneira a não manifestar essa ‘quimera’. Coisas bobas como ser magro, recrutar gordura marrom (é aquela que se cria no estresse do corpo exposto a temperaturas baixas), comer alimentos ricos em fitoquímicos (coloridos e funcionais), ingerir menos gordura e proteína animal, dormir bem, ter vida sexual saudável e meditar estão no pacotão da epigenética. O mais legal é que as marcas conquistadas pela epigenética passam aos descendentes. Pais que engravidam ‘não saudáveis’ passam tais características aos filhos, mas também ao contrário, pais que engravidam durante grande período de comportamento salutar, passam tais características benéficas aos descendentes.

Veja o vídeo:


Coronavírus e a indústria de novas tecnologias em saúde

Saúde e computação quântica


Além da epigenética, muitas substâncias vêm sendo pesquisadas e indicam que podem ter atuação na longevidade. O NMN é a grande estrela dessa hora. O trava-língua (NMN) é o acrônimo de Mononucleotideo Nicotinamida. Essa substância ajuda a aumentar o NAD+  (dinucleotídeo de nicotinamida e adenina em sua forma oxidada – um derivado da vitamina B3), que é justamente umas das principais substâncias relacionadas à longevidade (o NAD+ é o que ajuda no fornecimento de energia para o funcionamento das Sirtuínas, que são enzimas que ajudam a conservar integro nosso DNA). Assim, quando se ingere o NMN, aumenta-se o NAD+. Bingo! A substância, ainda cara para a população e praticamente não disponível no Brasil, começa a pulular já nas gôndolas dos EUA e alguns locais na Europa. Os relatos de pacientes na internet são empolgantes, inclusive o relato do próprio pai do autor do livro, Sinclair. Se os resultados forem os mesmos aferidos nos ensaios com animais, teremos já, uma das substâncias que seriam um dos elixires da juventude.

Outras substâncias, como o resveratrol (aquele do vinho tinto), muito mais que seu potencial antioxidativo, também começa a provar seus efeitos anti-aging, além de outras, como a Metformina, uma medicação para tratar diabetes tipo II. Obviamente vale a recomendação de não tentarmos ingerir nada que não seja indicado por médicos de nossa confiança, mas estas substâncias acima e outras tantas promissoras começam a surgir num quase deserto de coisas comprovadas.

Além dessa possível panaceia, temos os estudos com CRISPR, que é a edição genética através de vetores e enzimas, com a incrível possibilidade de se cortar um gene ‘ruim’ e colar um gene ‘bom’, consertando-se eventuais defeitos. Obviamente ainda falta bastante pra termos o efeito Benjamin Button, mas vários estudos estão a caminho e terapias começam a ser realizadas com a técnica, a exemplo do Car-T cell (lembram do brasileiro curado de um câncer avançado?) e tratamento de pacientes com anemia falciforme.

Tudo isso descrito acima, junto e misturado e auxiliado por Inteligência Artificial (IA). Novas drogas e substâncias testadas em ensaios usando-se IA e adiantando processos que duravam anos. A análise massiva de dados pessoais através de gadgets ligados ao nosso corpo (como smartwatches e sensores diversos), de nosso prontuário e exames específicos como o mapeamento completo de nosso DNA a menos de 100 dólares. A confluência dessa enormidade de dados e conhecimento (singularidade), além de acontecimentos, têm uma data ‘mágica’, 2030, que está logo aí.

Segundo os gurus da Singularity, nessa data teremos o real estabelecimento da Inteligência Artificial Geral, que nada mais é que o momento em que os computadores começam a tomar decisões e nossos conhecimentos em codificação de computadores começam a se tornar pouco úteis. Diz-se que quem chegar com reservas biológicas nesta data, isto é, bem de saúde, virtualmente ganhará nova data de aniversário. Imaginem quando chegarmos a 2045. Ray Kurzweil advoga que teremos a superinteligência artificial.

A longevidade, é fato, vem aumentando nos últimos dois séculos, notadamente dos anos 50 para cá. Se imaginarmos que o ser humano que mais viveu até hoje, a francesa Jeane Calment, morreu aos 122 anos em 1997. Agora imagine que esse exemplo seja uma coisa corriqueira e mais, chegarmos fácil aos 150, com saúde, ou até 170. Muita coisa terá de ser repensada. Será que casais se suportarão por mais de cem anos? Será que conseguiremos permanecer numa profissão por 80? Bom, isso é assunto pra outros artigos.

Essa tal revolução 4.0 está realmente disruptando vários aspectos das nossas vidas e agora, além das tecnologias magníficas as quais nos rodeiam com gadgets, viveremos mais e mais. Os 80 da próxima década poderão ser ‘os 30’ dessa aqui. Talvez nossos filhos e netos ultrapassem a casa dos 150, 200 ou mais.

E você, está preparado para viver mais?

Alexandre Parmahttps://infohealth.com.br
Médico radiologista e entusiasta de tecnologia. Fundador da hygia bank

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