Anticoagulante melhora respiração de pacientes graves com covid-19

Cada segundo em uma epidemia é importante. Por isso, pesquisadores, cientistas, profissionais de saúde continuam correndo contra o tempo em busca de melhores soluções para tratar o novo coronavírus. Em uma destas pesquisas, encontrou-se uma possível solução: o uso do anticoagulante heparina em pacientes graves com covid-19.

Médicos do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, perceberam que o agravamento da infecção pelo novo coronavírus podia estar relacionada à formação de microcoágulos nos vasos sanguíneos dos pacientes. A hipótese foi criada após o acompanhamento da primeira paciente com covid-19 internada na UTI que apresentava a pontas dos dedos azuladas e níveis baixos de oxigenação do sangue. A partir da análise deste e de outros casos, percebeu-se que havia um quadro de coagulação nos pulmões, em reação às inflamações causada pelo vírus, impedindo que o oxigênio chegasse ao sangue.

Com esta base, a médica pneumologista e coordenadora do estudo, Elnara Marcia Negri, entrou em contato com médicos do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) que fizeram autópsia em vítimas que morreram de covid-19. Ao realizar as autópsias, patologistas revelaram pequenos coágulos nos vasos sanguíneos em diversas partes do corpo, confirmando como uma característica da falência de órgãos nos pacientes graves com covid-19.

A partir disso, deu-se início, de forma experimental, o uso do anticoagulante heparina — que é amplamente utilizado na prática clínica — durante a internação hospitalar para o tratamento de pacientes graves por covid-19.

Para o teste, foram selecionados 27 indivíduos atendidos no Hospital Sírio Libanês, entre os dias 21 de março a 12 de abril. Todos receberam heparina, com doses adaptadas à gravidade da situação. Os resultados foram divulgados em artigo publicado no site Medrxiv em 22 de abril.


Melhora progressiva nos pacientes graves com covid-19

Segundo a pneumologista e coordenadora do estudo Elnara Marcia Negri, em entrevista para o Jornal da USP, a heparina é aplicada em casos graves que evoluem para queda da oxigenação do sangue. “Este estudo inicial inclui 27 pacientes com Covid-19 com escore WHO 3 a 7, um indicador de gravidade da doença estabelecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS), média de idade de 56 anos, comorbidades como diabetes, obesidade e cardiopatias, entre outras”, relata.

“Os pacientes apresentaram uma média de tempo de internação em torno de 10 a 15 dias e todos estão vivos. A maioria já teve alta e apenas três se encontram na UTI ainda”, afirma.

De acordo com a médica, o tratamento com heparina tem custo acessível e já é utilizado no Sistema Único de Saúde (SUS), o que poderá torná-lo disponível para um grande número de pessoas. “Ele é contraindicado para pacientes com grande risco de sangramento, como os que apresentam algumas lesões tumorais, que tiveram acidente vascular cerebral (AVC) recentemente ou foram operados há pouco tempo”, observa.

Os pesquisadores pretendem consolidar os resultados obtidos nos tratamentos utilizando doses diferentes de heparina em um número maior de pacientes. Com base nas informações existentes, um protocolo de pesquisa será submetido à aprovação pelo Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) para que o estudo seja ampliado.

Os resultados preliminares do tratamento foram divulgados na forma de preprint, para informar e orientar outros médicos e estudiosos no Brasil e no exterior. O trabalho conta com a colaboração dos médicos das áreas de pneumologia, hematologia e terapia intensiva do Sírio-Libanês, pesquisadores do Laboratório de Biologia Celular (LIM-59) e do departamento de Hematologia e Hemoterapia da FMUSP, do Instituto do Coração do HC e do AC Camargo Cancer Center.


Fotomontagem: Cleber Siquette/Jornal da USP


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Isadora Osório Silveira
Jornalista pela ESPM-Poa. Entusiasta por desafios, evolução e networking. Atualmente, em especialização na área da saúde e bem-estar.

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