Estados enfrentam falta de medicamentos para sedar e entubar pacientes com covid-19

Após enfrentarem a escassez de Equipamentos de Proteção Individual e respiradores, profissionais as secretarias estaduais de saúde agora denunciam a falta de medicamentos utilizados na intubação de pacientes em casos mais graves de covid-19

Ainda que os hospitais tenham leitos e equipamentos adequados, sem os medicamentos necessários, como sedativos e relaxantes, existe a possibilidade de fracasso no tratamento, o surgimento de complicações e até mesmo a morte dos internados.

Os pacientes graves que serão entubados precisam do relaxante neuromuscular para facilitar o processo e precisam ser mantidos sedados enquanto estiverem no respirador.

Segundo o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), todas as secretarias estaduais relataram ter medicamentos dessa classe em falta ou com estoque crítico. Durante comissão externa de ações contra o coronavírus, na Câmara dos Deputados, o consultor de Assistência Farmacêutica do Conass, Heber Dobis Bernarde, manifestou preocupação sobre o tabelamento de preços e a requisição desses medicamentos

Segundo ele, a entidade começou a receber relatos de secretarias estaduais sobre a falta de medicamentos do chamado “kit intubação”. A partir de respostas de 25 secretarias estaduais, o levantamento mostra que 11 medicamentos usados como apoio para ventilação mecânica estão em falta em mais da metade dos estados do país.

O Rocurônio, por exemplo, um relaxante muscular utilizado na intubação está em falta na rede pública de 24 estados brasileiros, ou seja, em 96%. “A falta de medicamentos para indução da sedação, anestesia e relaxamento muscular pode inviabilizar o processo de instituição da ventilação mecânica“, salientou Heber em sua apresentação. “Teremos que nos acostumar a ver notícias sobre situações onde teremos todo o arsenal de insumos necessários para intubação, mas por falta de medicamentos o processo será inviabilizado”, destacou. 

Além da indisponibilidade dos produtos, gestores do Sistema Único de Saúde (SUS) estão deixando de adquirir os medicamentos por suspeita de ofertas acima do Preço Máximo de Venda ao Governo (PMVG), estabelecido pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED). No entanto, ainda durante a comissão externa, o presidente-executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), Nelson Mussolini, reforçou que ainda que atual política de preço da CMED seja ultrapassada, as denúncias de sobrepreço devem ser apuradas.

Mussolini também argumentou que a alta demanda pelos medicamentos afetou o mercado. De acordo com ele, existem outros fatores que levam ao aumento de preços e à falta de medicamentos nos hospitais brasileiros: o aumento do dólar, dificuldades com frete para entrega de matéria-prima e distribuição dos medicamentos. 

É importante destacar que a carência desses medicamentos afeta não somente os casos de covid-19, mas também outros pacientes que precisam de intubação, como em recuperação de cirurgias em outras Unidades de Tratamento Intensivo (UTI’s).


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Principais medicamentos em falta

Segundo levantamento da Conass, a partir de questionários respondidos pelas secretarias estaduais na primeira semana do mês de junho (01), 11 medicamentos, pelo menos, estão em falta em mais da metade das pastas.

Responderam o questionário 25 secretarias, das 27 no país. Os medicamentos em falta e quantas secretarias relataram desabastecimento está no quadro abaixo.

MedicamentoNúmero de secretarias que relataram
a falta do medicamento
Rocurônio, Brometo 10mg/ml24 secretarias (96%)
Fentanila, citrato 0,05mg/ml20 secretarias (80%)
Midazolam 5mg/ml19 secretarias (76%)
Atracúrio, besilato 10mg/ml19 secretarias (76%)
Cisatracúrio, besilato 2mg/ml19 secretarias (76%)
Suxametônio, cloreto 100mg16 secretarias (64%)
Atropina, sulfato 0,25mg/ml15 secretarias (60%)
Propofol 10mg/ml14 secretarias (56%)
Morfina , sulfato 10mg/ml14 secretarias (56%)
Cetamina, cloridrato 50mg/ml13 secretarias (52%)
Dextrocetamina, cloridrato 50mg/ml13 secretarias (52%)
Dexmedetomidina, cloridrato 100mcg/ml12 secretarias (48%)
Etomidato 2mg/ml12 secretarias (48%)
Fonte: Conass.

O Conass enviou um ofício ao Ministério da Saúde solicitando apoio, pois entende que “ainda que a responsabilidade de aquisição seja das secretarias estaduais e municipais e de hospitais, o ministério pode, de forma coordenada e central, apresentar condições para ajudar todas as secretarias”.


Governo estadual de Minas Gerais nega desabastecimento

A Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) informou, por meio de nota, que não há conhecimento de desabastecimento de medicamentos nas instituições hospitalares do Estado.

“No âmbito do sistema estadual de saúde, nas unidades geridas pela Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), as aquisições e entregas de insumos e medicamentos são feitas por meio de fornecedores licitados e cadastrados no sistema estadual, por meio da Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão (SEPLAG). Esses itens são distribuídos nas unidades e existe um gerenciamento de estoque, que, por se tratar de uma rede, tende a ser mais robusto”, informou.
 
No entanto, a Sociedade de Anestesiologia do estado mineiro manifestou “grande preocupação com a falta de medicamentos sedativos e relaxantes musculares nos hospitais de Minas Gerais”. Em nota divulgada, a entidade frisou a necessidade da ação rápida das autoridades de saúde estaduais e federais para resolver a situação, que “poderá levar a consequências devastadoras durante a pandemia de Covid-19, em função da impossibilidade de acesso adequado às vias aéreas e da manutenção de pacientes sob ventilação mecânica”.


Foto: REUTERS/Amanda Perobelli

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