Publicação de estudo que invalidava cloroquina é retirada

Autores do estudo que invalidou o uso da cloroquina e do seu derivado, a hidroxicloroquina, em casos de covid-19, afirmaram que não é possível garantir a veracidade dos dados do estudo, de acordo com o comunicado no site da revista científica The Lancet. Por isso, os cientistas pediram a retirada do estudo da publicação e realizaram uma nota de retratação.

A forma como os dados foram obtidos foi a maior razão de críticas. O instituto responsável pela filtragem das informações dos pacientes é a empresa Surgisphere – uma companhia de mineração de dados médicos que não revela as fontes de onde as informações são colhidas. Os autores cardiologistas e cirurgiões Mandeep Mehra, Frank Ruschitzka e Amit Patel também não obtiveram sucesso na validação independente dos dados usados para a publicação, o que torna impossível a checagem dos óbitos e o acesso às fichas completas dos 96 mil pacientes que fizeram parte do levantamento.

“Nossos revisores independentes nos informaram que a Surgisphere não transferiria o conjunto de dados completo (…) já que isto violaria contratos com clientes e compromissos com a confidencialidade. Assim, nossos revisores não foram capazes de conduzir uma revisão por pares independente e privada e, portanto, notificaram-nos de sua retirada do processo”, escreveram os autores na nota de retratação.

“Nós não podemos mais garantir a veracidade das fontes dos dados primários. Por causa deste desenvolvimento infeliz, os autores pedem que o artigo seja retratado”, afirma o médico e cientista Mandeep Mehra.

Publicado em 22 maio, o estudo tinha como base a análise dos registros de 96.032 pacientes internados em 671 hospitais de seis continentes, e havia concluído que a hidroxicloroquina não trazia nenhum benefício aos pacientes e até aumentou o risco de morte por complicações cardíacas.

A publicação do estudo teve um impacto global e levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a suspender seus ensaios clínicos com hidroxicloroquina. Após a retratação, a OMS anunciou a retomada dos testes com ambas as substâncias.

Em carta pública, 120 cientistas médicos, pesquisadores e estatísticos de todo o mundo contestaram os números, e solicitaram que a OMS conduzisse auditorias independentes para validar as informações. A carta afirmou que não há como revisar os dados utilizados, já que os nomes dos pacientes e os hospitais onde foram registrados os números não estão disponíveis para consulta. Os especialistas apontaram, ainda, uma falta de “revisão ética” na publicação. “É por interesse na transparência [das informações] que solicitamos que a publicação The Lancet torne aberta a pesquisa aos comentários dos pares que fizeram a revisão desse estudo”, afirma o documento.

“Nós todos entramos nesta [jornada de] colaboração para contribuir, em boa fé e em um tempo de grande necessidade, com a pandemia de covid-19. Pedimos desculpas sinceras para você, para os editores e para os leitores do jornal [a revista The Lancet] pelo constrangimento e pela inconveniência causados”, informa a carta.

retratação do estudo, assim como a íntegra da publicação original, ainda se encontram disponíveis no site da The Lancet.


Foto: Jader Paes/ Agência Pará

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