Como você lida com emoções desagradáveis?

Você já parou para pensar sobre como age diante de emoções desagradáveis?

Quando crianças, em um desenvolvimento saudável, temos o apoio de nossos pais ou cuidadores para conseguir entender e lidar com todas nossas emoções. Ao longo de nosso desenvolvimento, conforme vivenciamos novas experiências, vamos adquirindo nossas próprias estratégias de enfrentamento diante das emoções, que podem ser adaptativas ou desadaptativas.

As estratégias adaptativas ocorrem quando aceitamos nossa emoção desagradável e aprenderemos a lidar com ela de forma mais assertiva. Do contrário, usaremos uma estratégia não adaptativa, ou seja, ao não aceitarmos nossas emoções desagradáveis, partiremos para falsas soluções na busca de um alívio emocional instantâneo, o que pode nos criar novos problemas.

Para entendermos um pouco mais sobre essas estratégias, precisamos falar também sobre as emoções. Todas as emoções são vitais para nossa sobrevivência, pois é através delas que nos comunicamos, adaptamos e lembramos de nossas necessidades pessoais. Dentre as emoções mais básicas temos, as agradáveis de sentir, são elas: amor e alegria, e as desagradáveis, como: medo, raiva, nojo e tristeza. Pode ser muito prazeroso sentir as emoções agradáveis, mas as emoções desagradáveis nem sempre são fáceis de lidar.

Muitas pessoas acabam utilizando estratégias não adaptativas na tentativa de evitar essas emoções. O nome desta reação comportamental é esquiva experiencial, também chamada de esquiva emocional, se refere a comportamentos negativos que visam tentar controlar ou evitar emoções desagradáveis. Exemplos de comportamentos negativos incluem o uso de drogas lícitas e ilícitas, uso de telas em exagero, compulsões alimentares, automutilação, entre outros. Então, a esquiva experiencial funciona como um “anestesiador” da emoção desagradável na tentativa frustrada de regular tal emoção.

Não é uma tarefa fácil tentar mudar o jeito de agir diante das emoções desagradáveis, tendo em vista que muitas pessoas crescem aprendendo que as emoções desagradáveis são “feias” e erradas de sentir. Em decorrência disso, essas pessoas têm dificuldade em nomear e expressar suas emoções, além de muitas vezes não conseguirem suportar senti-las e aceitá-las. Por que isso acontece?

Muitos fatores podem contribuir, como nossa percepção, o ambiente, nossa cultura, entre outros. Como desde pequenos aprendemos ser inapropriado sentir raiva, nojo, medo e tristeza, acabamos acreditando ser mais adaptativo no meio social não sentirmos tais emoções. Assim, passamos a tentar “controlá-las”, com a ideia de que só seremos aceitos em nosso meio, caso consigamos expressá-las o menos possível. Passamos a acreditar que essas emoções desagradáveis são “feias” de sentir. Isso contribui para que passemos a esconder essas emoções, inclusive de nós mesmos, e acabamos não aprendendo como lidar com elas quando nos tomam.

Por isso, acabamos procurando formas não adaptativas, como a esquiva experiencial para lidar com elas, essas estratégias são usadas na tentativa de preencher algo, de voltar ao controle e não sentir as emoções.

Alguns exemplos de situações que podem provocar a esquiva experiencial: luto, saudade, insegurança, medo, ansiedade, incerteza, intolerância a frustração, entre outros. Veja um exemplo prático de um caso fictício: João tem 32 anos, casado a 3 anos com Ana. Sempre que tem preocupações, afirma que costuma relaxar através do uso de maconha. Recentemente descobriu não ser filho legítimo de seu pai, desde então tem feito o uso de maconha com maior frequência associada a bebidas alcoólicas. Afirma não ser uma novidade tal notícia, pois desconfiava não ser filho biológico de seu pai desde a adolescência. Ana relatou que João agiu com indiferença diante do acontecimento e que não entra no assunto quando perguntado sobre a descoberta. Mas, percebe que seu marido está mais agressivo desde então, além de confirmar o aumento do uso da maconha e do álcool.

Neste caso é possível identificar que João possui dificuldade em expressar-se e então utiliza da esquiva experiencial, através do uso da maconha e álcool como recurso de enfrentamento. A forma mais apropriada de João lidar com sua situação seria buscar apoio psicológico. Pois, através da terapia seria possível que João adquirisse autoconhecimento e desenvolvesse estratégias de enfrentamento mais adaptativas para lidar com sua esquiva experiencial de forma mais assertiva.

 Formas mais adequadas de agir diante das emoções desagradáveis podem ser: através da confrontação da emoção de forma assertiva, do autocontrole, aceitação de responsabilidade e reavaliação positiva do problema que causou tais emoções. Uma forma mais fácil de aprender estas estratégias e colocá-las em prática seria trabalhá-las em psicoterapia.

Como identificar se estamos praticando esquiva experiencial?

Cada pessoa possui sua forma de experienciar, seguem alguns exemplos:

  • -Quando temos dificuldade em entrar em contato com a emoção desagradável;
  • -Quando percebemos que estamos adquirindo hábitos não saudáveis;
  • -Quando passamos a comer mais descontroladamente alimentos, fast-foods e doces;
  • -Quando procuramos com mais frequência drogas lícitas e ilícitas;
  • -Quando passamos a ter desregulação do sono;
  • -Quando não aceitamos o que sentimos, entre outros.

Algumas formas de trabalhar nossas emoções desagradáveis:

  • -Identificar quais emoções estão ativadas;
  • -Entender para que são importantes estas emoções;
  • -Verificar o que elas significam;
  • -Verificar quais são as vantagens e desvantagens de aceitá-las;
  • -Identificar o que de pior pode acontecer aceitando-as;
  • -Procurar apoio psicológico.

Se você se identificou com esta leitura e gostaria de praticar o autocuidado, fator relevante para o bem-estar, procure apoio psicológico.


Referências:

CAMINHA, R., CAMINHA, M. Emocionário. Dicionário das emoções. Editora Sinopsys, 2018

CAMINHA, R., CAMINHA, M. Baralho da regulação e proficiência emocional. TRI Clínico. Editora Synopsys, 2016.

LEAHY, Robert L., TIRCH, Dennis, NAPOLITANO, Lisa A. Regulação Emocional em Psicoterapia.Editora Artmed, 2013.

WRIGHT, Jesse H., BASCO, Monica R., THASE, Michael E. Aprendendo a Terapia Cognitivo-comportamental. Editora Artmed, 2008.

Fransuellen Avila
Psicóloga clínica com foco na terapia cognitivo comportamental. CRP: 07/32383

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