Porque a resistência antimicrobiana é um sério problema de saúde mundial?

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Assinatura Adriana
Assinatura Camila

A penicilina foi descoberta pelo bacteriologista e médico inglês Alexander Fleming em 1928 [1]. De lá para cá, a chamada “era dos antibióticos” revolucionou nosso modo de tratar infecções e melhorou substancialmente a nossa qualidade e expectativa de vida [2, 3]. Com o advento dos antibióticos, bem como o desenvolvimento de vacinas aliado a um maior acesso a saneamento e serviços de saúde, alcançamos uma redução significativa do número de mortes associadas a doenças infecciosas. A taxa de mortalidade da pneumonia em crianças, por exemplo – uma infecção comumente causada por bactérias (embora possa ocorrer com vírus e fungos), caiu de 2,34 milhões para menos de 810 mil mortes, de 1990 até os dias de hoje [4]. Porém, mesmo que tenhamos obtido muitos avanços, apenas 92 anos se passaram a partir da descoberta de Fleming e já enfrentamos um sério e global problema de saúde, a resistência a antimicrobianos[1], considerada um dos maiores desafios ao progresso da medicina moderna [5, 6].

Embora possa ocorrer com microrganismos em geral, a resistência a antimicrobianos é ainda mais preocupante para as bactérias. Algumas cepas já apresentam resistência, até mesmo, contra desinfetantes [7, 8]! Entretanto, a resistência aos antibióticos é o que mais preocupa, pela dificuldade do tratamento de infecções humanas [5, 6]. Muitos antibióticos se tornaram ineficazes com o tempo e algumas infecções passaram a ser “intratáveis”, mesmo as mais comuns, como aquelas do trato urinário e do trato respiratório [9, 10]. Isso ocorre porque, quando um antibiótico é utilizado, as bactérias que ele combate podem se tornar resistentes ao tratamento com o tempo [3]. É consenso que o elevado consumo, o uso inadequado e a alta taxa de exposição aos antimicrobianos contribuíram substancialmente para o surgimento de bactérias com resistência a um, ou múltiplos medicamentos; nesse último caso, as chamadas “superbactérias” [9].

No mundo, as infecções resistentes a medicamentos causam pelo menos 700 mil mortes anuais [6]. No Brasil, bactérias resistentes a antibióticos já causam 2 milhões de casos de infecções e 23.000 mortes por ano [11]. Nos Estados Unidos, estes números chegam a 3 milhões de casos e 35 mil mortes anuais [12, 13]. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) a tuberculose é a doença com prioridade máxima de tratamento, pois causa cerca de 1,8 milhões de mortes por ano, das quais 230 mil são causadas por bactérias multirresistentes a antibióticos [5, 14]. As infecções causadas por bactérias resistentes a antibióticos beta-lactâmicos, especialmente os carbapenêmicos, são elencadas como prioridade crítica pela OMS [14].

Caso não modifiquemos nossas ações, estima-se que até 2050 a resistência antimicrobiana possa se tornar uma das principais causas de mortes humanas no mundo, com 1 morte a cada 3 segundos, ou o total de 10 milhões de mortes anuais [5, 14]. Estes valores ultrapassariam até mesmo o número de mortes causadas por câncer e diabetes, com 8,2 e 1,5 milhões, respectivamente [14]. As perdas econômicas poderiam alcançar a faixa de 100 trilhões de dólares por ano [15].


Sua saúde não depende só de você, mas das bactérias presentes no seu intestino
Os pequenos gigantes, seus prós e antis


A disseminação de bactérias resistentes a antimicrobianos

Além da problemática relacionada à possível falta de tratamento para hospedeiros infectados, as bactérias resistentes também podem ser disseminadas para o ambiente e contaminar reservatórios naturais, assim como o solo e a água, além de novos hospedeiros. Ainda, elas não ocorrem somente em ambientes clínicos ou hospitalares, mas também em ambientes naturais, pois práticas como a agropecuária e a aquicultura empregam o uso de antibióticos. Na agropecuária, por exemplo, é comum o uso de antibióticos para a prevenção e não apenas para o tratamento de infecções. Essa prática reduz os gastos com medidas de higienização, mas intensifica enormemente o uso de antimicrobianos em animais e a disseminação de bactérias resistentes. Aliás, menos da metade dos antimicrobianos usados em animais é de uso humano, a maior parte é de uso veterinário [16 – 22].


Responsabilidade de consumo

Como podemos consumir antibióticos de forma adequada no tratamento de infecções bacterianas? Inicialmente, é importante que as prescrições de medicamentos sejam feitas com base em resultados laboratoriais que irão detectar se a infecção é causada por uma bactéria, “quem” ela é e se ela é sensível ou não a determinados antibióticos. O uso correto diz respeito à administração em caso de real necessidade, isto é, não solicite receitas para a compra de fármacos nem os utilize por conta própria. Quando for necessário e prescrito por um médico, administre o medicamento na dose certa, horário e período de tempo estipulados na bula ou indicados pelo especialista [3]. Este ponto é crucial (e mudará de um medicamento para outro!), pois é necessário que o corpo mantenha doses adequadas da substância para que as bactérias resistentes não encontrem algum intervalo de tempo que facilite sua seleção.

Também, não compartilhe sobras de medicamentos com terceiros nem e descarte sobras de medicamentos no lixo comum. Previna infecções com higiene adequada, principalmente das mãos, alimentos e utensílios, utilizando água limpa e de qualidade. Por fim, é importante entender que antibióticos não tratam infecções virais[2] , como gripes e resfriados, por exemplo, mas sim infecções causadas por bactérias.


Ações coletivas de combate à resistência antimicrobiana

Além da responsabilidade individual, a responsabilidade de consumo envolve muitos passos relacionados às boas práticas coletivas: i) desenvolvimento e comercialização de antimicrobianos seguros por parte das empresas; ii) investimentos no desenvolvimento de novos testes diagnósticos, que sejam mais rápidos e precisos do que aqueles comumente empregados; iii) investimento em pesquisa, para o desenvolvimento de novas vacinas e alternativas ao tratamento de infecções; iv) normas mais criteriosas para a utilização de antibióticos na criação de animais e antimicrobianos nos ambientes em geral; v) segurança alimentar e prevenção e controle de infecções nas unidades de saúde; e vi) legislação e política adequadas para o controle do uso e da venda de medicamentos em todos os países [5, 6, 16, 23].

Em relação aos testes diagnósticos empregados atualmente, na maioria das vezes, seus resultados são demorados, causando espera e sofrimento por parte do paciente. Ainda, quando se trata de bactérias que são difíceis de cultivar em laboratório, muitos testes podem também não apresentar resultados satisfatórios. Dessa forma, o desenvolvimento de novos testes tem grande importância para aumentar a segurança do paciente e também para auxiliar o médico em sua prática clínica, contribuindo para intervenções precoces e apropriadas à orientação da escolha medicamentosa (tipo de droga, dose apropriada, correta utilização da droga e período de uso) e tratamento do paciente.

De acordo com a OMS (2018), existem disparidades quanto ao controle do uso e da venda de medicamentos em diferentes países. Enquanto muitas populações estão vulneráveis a doenças infecciosas pela escassez de medicamentos, outras apresentam níveis elevados de consumo e contribuem para a disseminação de bactérias resistentes e nocivas [24]. Em relação às políticas brasileiras, a retenção de receita para a compra de antibióticos entrou em vigor em 2010 (RDC nº 44/2010). Também, recentemente o Brasil lançou o “Plano de Ação Nacional de Prevenção e Controle da Resistência aos Antimicrobianos no Âmbito da Saúde Única 2018-2022” [25]. No mundo, esse problema é acompanhado de perto por órgãos como a OMS e ONU (Organização das Nações Unidas), além de diversos especialistas e organismos internacionais unidos em prol do estabelecimento de estratégias ao combate dessa problemática. Em 2019 foi instituída a “Coordenação Interagencial da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre Resistência Antimicrobiana (IAGC)”, para a elaboração de uma matriz ao combate da resistência antimicrobiana no mundo [5].

Por fim, é importante concluir que a problemática da resistência a antibióticos nos afeta pela diminuição do número de opções disponíveis para o tratamento de infecções bacterianas, o que ocorre em ritmo mais acelerado do que a nossa capacidade de descobrir novos medicamentos ou tratamentos [3]. Embora a redução do uso de antimicrobianos apresente resultados visíveis em longo prazo, é importante entender que o combate à disseminação de bactérias resistentes é uma atitude coletiva e mundial que deve ser empregada agora, pois a disseminação de um microrganismo pode passar de escalas locais a globais. Nós não queremos passar por isso, mas estamos passando por isso, com um vírus. Por isso, e para evitar ou resolver problemas futuros, é importante que possamos entender quem são os microrganismos e como eles atuam [3] em nossa vida e ambiente.


Referências bibliográficas

[1] Fleming (1929) On the antibacterial action of cultures of a Penicillium with special reference to their use in the isolation of B. influenza. Br J Exp Pathol,10:226–36.

[2] El Pais “Se não criarmos novos antibióticos, as pessoas morrerão aos 50 ou 60 anos, como antes”. Página visitada em 10/05/2020.

[3] R7 “Por que é preciso tomar antibiótico na hora certa?”. Página visitada em 13/05/2020.

[4] Dadonaite & Roser “Our World in Data” (2018) Pneumonia. Página visitada em 03/06/20

[5] Interagency Coordination Group on Antimicrobial Resistance (2019) No time to wait: Securing the future from drug-resistant infections.

[6] Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) “Novo relatório pede ação urgente para evitar crise de resistência antimicrobiana”. Página visitada em 11/05/2020.

[7] Carlie et al. (2020) Molecular basis of bacterial disinfectant resistance. Drug Resistance Updates, 48, 100672.

[8] Weber et al. (2019) Use of germicides in health care settings—is there a relationship between germicide use and antimicrobial resistance: A concise review. American journal of infection control, 47, A106-A109.

[9] Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) (2017) “Uso incorreto de antibiótico estimula superbactérias”. Página visitada em 11/05/2020.

[10] Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) (2017) Diretriz Nacional para Elaboração de Programa de Gerenciamento do Uso de Antimicrobianos em Serviços de Saúde. GVIMS/GGTES/ANVISA.

[11] Zagui (2019) Tese: Avaliação da multiresistência a antibióticos e produção de ESBL e carbapenamases em bacilos gram-negativos de efluente hospitalar e urbano. Ribeirão Preto. Universidade de São Paulo, 89 p.

[12] Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC/USA) (2020) “Antibiotic/Antimirobial resistance”. Página visitada em 14/05/2020.

[13] Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) “Novo relatório pede ação urgente para evitar crise de resistência antimicrobiana”. Página visitada em 11/05/2020.

[14] World Health Organization (2017) Antibacterial agents in clinical development: an analysis of the antibacterial clinical development pipeline, including tuberculosis.

[15] Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) (2019) “Resistência antimicrobiana é ameaça global, diz OMS”. Página visitada em 17/05/2020.

[16] European Medicines Agency, European Surveillance of Veterinary Antimicrobial Consumption, 2017.

‘Sales of veterinary antimicrobial agents in 30 European countries in 2015’ (EMA/184855/2017). Página visitada em 03/06/20.

[17] Marshall et al. (2011) Food animals and antimicrobials: impacts on human health. Clinical microbiology reviews, 24(4), 718-733.

[18] Ritchie “Our World in Data” (2017) How do we reduce antibiotic resistance from livestock? Página visitada em 03/06/20

[19] Done et al. (2015) Does the recent growth of aquaculture create antibiotic resistance threats different from those associated with land animal production in agriculture? The AAPS journal, 17(3), 513-524.

[20] UK – Veterinary Antibiotic Resistance and Sales Surveillance Report (2017) Additional data for the United Kingdom in 2016 was sourced from: UK-VARSS 2016. Página visitada em 03/06/20

[21] Boeckel et al. (2015) Global trends in antimicrobial use in food animals. Proceedings of the National Academy of Sciences, 112(18), 5649-5654.

[22] CDDEP The Center For Disease Dynamics, Economics & Policy, Resistance Map. Página visitada em 03/06/20 https://resistancemap.cddep.org/AnimalUse.php

[23] The Review on Antimicrobial Resistance (2016) “The global challenge of drug-resistant infections”. Página visitada em 18/05/2020.

[24] Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) (2017) “Mundo está ficando sem antibióticos eficazes para tratar infecções, confirma relatório da Organização Mundial da Saúde”. Página visitada em 19/05/2020.

[25] Ministério da Saúde do Brasil (2019) Plano de Ação Nacional de Prevenção e Controle da Resistência aos Antimicrobianos no Âmbito da Saúde Única Ministério da Saúde Brasília. 25 p.


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