Sabonete ou álcool? Como se proteger e preservar a saúde da sua pele e do seu microbioma cutâneo.

Devido a COVID-19 estamos vivendo o que muitos têm chamado de “o nosso novo normal”. Enquanto isto, precisamos discutir como preservar a nossa saúde. Isso significa ouvir as diretrizes recomendadas pelas autoridades de saúde que agem com respaldo científico, praticar comportamentos sociais inteligentes, usar máscara e manter a higiene. 

Você precisa higienizar as mãos com frequência para limitar a propagação do novo coronavírus e de outros microrganismos. Produtos líquidos, géis e cremes contendo álcool são úteis, mas não são tão bons quanto lavar as mãos com sabão ou sabonete. 

De acordo com Pall Thordarson, professor de química na Universidade de New South Wales (Sydney, Austrália), os produtos à base de etanol, geralmente 70%, eliminam os vírus de maneira semelhante ao sabão e sabonete. Porém, lavar as mãos com sabonete é ainda melhor porque utilizamos uma quantidade pequena de água e sabão, a qual, com a fricção, cobre toda a mão com facilidade. Quando usamos produtos com álcool, é literalmente necessário impregnar o vírus em etanol e deixar o produto agir por algum tempo. Dessa forma, é muito mais difícil garantir que exista uma quantidade suficiente do produto por toda a superfície da pele para uma desinfecção correta [1].

Apesar de esses produtos serem incrivelmente eficazes para eliminar o vírus do qual todos estamos tentando nos proteger, eles também podem causar irritações e danos aos lipídios naturais presentes na superfície da pele [2-5].

Além de vírus, também existem milhares de outros pequenos seres sobre a nossa pele, sobretudo bactérias. Estes microrganismos mudam constantemente dependendo da localização, ambiente, idade, sexo e, claro, dos produtos que utilizamos na pele [6,7].

Embora ainda haja muito a descobrir sobre o microbioma cutâneo, já sabemos que ele influencia na estabilidade das células da pele, que são responsáveis pela síntese da queratina, bem como na proteção contra organismos patogênicos, atuando como um tipo de “barreira”[8], além de comunicar-se com o nosso sistema imunológico[9].

Os cientistas ainda não sabem as implicações a longo prazo ou o quão significativo pode ser o impacto do uso constante de desinfetantes para a nossa saúde e o microbioma presente na pele. Ainda precisamos entender o papel desses microrganismos e os fatores intrínsecos e extrínsecos que os afetam. Também não podemos mudar o fato de que todos agora precisam usar produtos desinfetantes com frequência, mas talvez possamos mudar uma ou outra atitude para tentar preservar a nossa pele, nosso microbioma e nossa saúde. 

O que você pode fazer: dê preferência ao uso de sabonetes para pele sensível, com pH adequado e use hidratantes.

Só use álcool gel quando você não tem acesso a sabonete e água corrente. Procure usar um sabonete para as mãos que tenha uma menor concentração de sulfatos, como o lauril sulfato de sódio, uma vez que o uso prolongado desses produtos pode causar irritação e danificar a barreira da pele [10,11]

Tente usar produtos que respeitam o pH da pele para mantê-la saudável. A pele saudável normal tem um pH levemente ácido (5,4-5,9). O uso de sabonetes com pH muito diferente do pH natural da pele pode causar um aumento no efeito desidratante, irritabilidade e causar alteração do microbioma da pele [12-14]

Também é importante ser cuidadoso com a pele após a lavagem. Escolha um creme hidratante que funcione para você, uma vez que os ativos e os excipientes podem ter influências inesperadas na ação do produto e na preservação da barreira da pele [15].

E os sabonetes que eliminam até 99% das bactérias? A gente discute na próxima coluna!


Referências bibliográficas

[1] Artigo do The Guardian. Disponível em: https://www.theguardian.com/commentisfree/2020/mar/12/science-soap-kills-coronavirus-alcohol-based-disinfectants
[2]Organization, W.H., Considerations for quarantine of individuals in the context of containment for coronavirus disease (COVID-19): interim guidance, 29 February 2020. 2020, World Health Organization.
[3] Kampf et al. “Persistence of coronaviruses on inanimate surfaces and their inactivation with biocidal agents.” Journal of Hospital Infection 104.3 (2020): 246-251.
[4] Lodén et al. “The irritation potential and reservoir effect of mild soaps.” Contact Dermatitis 49.2 (2003): 91-96.
[5] Slotosch et al. “Effects of disinfectants and detergents on skin irritation.” Contact Dermatitis 57.4 (2007): 235-241.
[6] Grice and Segre. “The skin microbiome.” Nature Reviews Microbiology 9.4 (2011): 244-253.
[7] Kong and Segre. “Skin microbiome: looking back to move forward.” Journal of Investigative Dermatology 132.3 (2012): 933-939.
[8] Beri. “Skin microbiome & host immunity: applications in regenerative cosmetics & transdermal drug delivery.” Future science OA 4.6 (2018): FSO302.
[9] Nakatsuji. “The microbiome extends to subepidermal compartments of normal skin.” Nature communications 4.1 (2013): 1-8.
[10] Elder. “Final report on the safety assessment of sodium lauryl sulfate and ammonium lauryl sulfate.” J Am Coll Toxicol 2.7 (1983): 127-181.
[11] Berardesca. “Effects of water temperature on surfactant‐induced skin irritation.” Contact dermatitis 32.2 (1995): 83-87.
[12]Braun-Falco and Korting. “Normal pH value of human skin.” Der Hautarzt; Zeitschrift fur Dermatologie, Venerologie, und verwandte Gebiete 37.3 (1986): 126-129
[13] Korting et al. “Influence of repeated washings with soap and synthetic detergents on pH and resident flora of the skin of forehead and forearm. Results of a cross-over trial in health probationers.” Acta dermato-venereologica 67.1 (1987): 41-47.
[14] Schmid-Wendtner and Korting. “The pH of the skin surface and its impact on the barrier function.” Skin pharmacology and physiology 19.6 (2006): 296-302.
[15] Lodén. “Effect of moisturizers on epidermal barrier function.” Clinics in dermatology 30.3 (2012): 286-296.

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