Por que temos tantas preocupações?

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Parece que vivemos em uma época em que o “novo normal” é ser alguém com muitas preocupações. Por vários motivos, aprendemos que essa é uma das formas de lidarmos com os problemas e, até mesmo, de evitarmos que problemas maiores aconteçam.

A preocupação não vem do nada. Ao longo da nossa vida, acabamos aprendendo, principalmente por meio da educação que obtivemos dos nossos cuidadores na infância, pelos traumas que sofremos e pela cultura que fomos inseridos, que a preocupação é fundamental para nossa sobrevivência em meio às dificuldades e obstáculos que a vida nos apresenta.

Temos vários argumentos para justificar tantas preocupações: “a preocupação me motiva”, “me ajuda a solucionar os problemas”, “ela me impede que eu seja pego de surpresa”. Além disso, preocupar-se tem a ver com a tentativa de eliminar os riscos e as incertezas que determinadas situações apresentam, afinal de contas a preocupação não teria sentido se tivéssemos a certeza absoluta das coisas, não é mesmo?

Geralmente pessoas altamente preocupadas começam a apresentar sintomas físicos importantes: insônia, tensão muscular, taquicardia, dores de cabeça etc. A procura por auxílio médico acaba acontecendo pelo fato desses sintomas estarem atrapalhando muito o cotidiano do indivíduo, porém o tratamento abrange somente parte do problema. O conflito psicológico, gerador dos sintomas físicos, se torna secundário e não tratado.

Algo importantíssimo para refletirmos é que a unidade central dos transtornos de ansiedade e da depressão, geralmente se inicia por uma preocupação. Ou seja, os nossos níveis de preocupação têm evoluído para transtornos psicológicos que, se não tratados, podem gerar inúmeros prejuízos para nossa vida. Em determinados casos, como na depressão, o suicídio acaba se concretizando pelo desamparo emocional e pela total desesperança que o indivíduo sente diante dos problemas e das preocupações que o acometem. Por essas razões, é muito importante refletirmos sobre como lidar de forma efetiva em frente às preocupações:


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Primeiro passo: filtre as preocupações, veja se elas são produtivas ou improdutivas.

Para definirmos se uma preocupação é produtiva, responda essa pergunta: Há algo que eu possa fazer neste momento ou em breve em relação a essa situação? Se a resposta for sim, então essa preocupação pode ser transformada em ação. Logo, há algo no seu controle possível de ser realizado. Um exemplo: um amigo está se sentindo sobrecarregado com o trabalho. Uma estratégia que pode ser utilizada é ele fazer uma lista das tarefas e priorizar as que dependem somente dele para realizar. Assim, transformar o desconforto em ação faz com que o nosso pensamento foque no momento presente e saia das projeções incertas do futuro que a nossa mente produz.

Uma preocupação improdutiva tem a ver com preocupações sem uma resposta imediata. O indivíduo que se preocupa dessa forma pode passar muito tempo “ruminando” mentalmente uma situação, ficando “preso” nos próprios pensamentos. Dessa forma, é como se o sujeito não conseguisse “desligar”, impedindo,então, que ele viva bons momentos de lazer e prazer. Além disso, as preocupações improdutivas envolvem uma avalanche de pensamentos negativos. Um exemplo disso: um amigo está preocupado com a possibilidade de estar doente, de ter uma doença séria, do plano de saúde não cobrir o tratamento, de morrer, de deixar a família desamparada etc. Entre sentir uma dor e termos um diagnóstico de uma doença terrível, há um espectro enorme de possibilidades que podem existir. Contudo, nossas preocupações estabelecem “verdades absolutas e terríveis” sobre determinadas situações e ficamos enredados por previsões indeterminadas sobre o futuro.


Segundo passo: aceite a realidade e aquilo que não está no seu controle.

Aceitar algo significa ver algo como aquilo realmente é e não como você gostaria que fosse. Ou seja, significa estar consciente do que é real nesse momento e não no que “pode ser que aconteça”. Ela nos ajuda a pensar no “aqui e agora” sem que o nosso pensamento se ocupe em pensar em situações difíceis e preocupantes que podem não estar no nosso controle a resolução. Protestar e lutar contra não resolvem os problemas, talvez o oposto disso faça com que possamos enxergar melhor a situação e vivermos o que precisa ser vivido.

Pode ser que seja impossível viver uma vida sem nenhuma preocupação, mas é possível viver uma vida em que a preocupação não nos domine a todo instante. Quando as preocupações afetam outras áreas e causam um impacto negativo no nosso dia-a-dia, se faz necessária uma autoavaliação sobre como está nossa relação com esse tema.

Tente responder a essas perguntas:

  • Você apresenta dificuldade em parar de se preocupar?
  • Você sente menos ansiedade quando se preocupa?
  • Você gasta muito tempo e energia ruminando certas preocupações?
  • Tem dificuldade em agir diante da preocupação?
  • Tem dificuldade em aceitar soluções imperfeitas diante da preocupação?
  • Se sente desconfortável por ter que tolerar possíveis riscos e incertezas?
  • Tem tido sintomas físicos em consequência das preocupações?

Se a maioria das respostas forem “sim”, talvez seja um boa hora para ter a psicoterapia como apoio e auxílio nessa área. Não espere mais!! 


Referências

LEAHY, Robert. Como lidar com as preocupações: sete passos para impedir que elas paralisem você. Artmed. Porto Alegre, 2007.

LEAHY, Robert. Livre de Ansiedade. Artmed. Porto Alegre,2011.

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