Atividade física e bem-estar psicológico

A prática regular de atividade física influencia positivamente a saúde, trazendo benefícios para a qualidade de vida e o bem-estar das pessoas. Esses benefícios, por sua vez, não se restringem aos aspectos físicos e fisiológicos, pois podemos observar outros benefícios de ordem psicológica e social, uma vez que, praticar atividade física é importante em todas as etapas da nossa vida, desde a infância até os seus estágios mais avançados[1].

No entanto, para pensarmos na relação entre atividade física e bem-estar psicológico, é preciso entender que atividade física não se resume a uma forma de gasto de calorias, com objetivos estéticos e fisiológicos[2,3]. Portanto, precisamos primeiro entender e definir um pouco melhor o que significa atividade física, a fim de podermos nos debruçar sobre os benefícios psicológicos dela, que são o que de fato nos interessa.

A atividade física pode ser definida como movimentos corporais produzidos pelo nosso sistema musculoesquelético, nos quais haja gasto energético e que podem ou não ser estruturados e organizados[3]. Quando pensamos em atividade física, é importante observar que a estrutura dos movimentos também se refere aos objetivos dessa atividade, podendo ser terapêuticos, promotores de condicionamento físico ou ambos. Podemos, assim, citar alguns exemplos como forma de ilustração, como exercícios para aumento da capacidade cardiorrespiratória, exercícios para hipertrofia muscular, exercícios para fortalecimento de músculos e/ou articulações em processo pós-operatório, exercícios para aquisição de uma determinada técnica etc.

Todavia, o modo como dividimos as atividades físicas, segundo sua finalidade, em terapêuticas e em promotoras de condicionamento físico é apenas uma maneira de podermos distinguir mais facilmente os objetivos e benefícios principais daqueles que são secundários em cada atividade e exercício.

Essa divisão, no entanto, é importante, pois quando pensamos nos benefícios psicológicos da atividade física, estamos direcionando nossa atenção para os objetivos terapêuticos das atividades, mesmo que essas promovam benefícios físicos e fisiológicos.

De maneira geral, o bem-estar psicológico, segundo Ryff e Keyes[4], está atrelado a um equilíbrio entre aspectos positivos e negativos de seis elementos, os quais podem ser definidos como:

  • Auto aceitação: seriam as atitudes positivas sobre si mesmo;
  • Relações positivas: capacidade de empatia, afeição e intimidade com relação as outras pessoas;
  • Autonomia: descrita como resistência às pressões sócias e capacidade de independência para agir e pensar, apesar dessas pressões;
  • Domínio do ambiente: capacidade do indivíduo para controlar e manipular os ambientes de acordo com suas necessidades e valores;
  • Propósito de vida: descrito como a capacidade de manutenção de objetivos e de um senso de direção, entendendo que existe um significado para a vida passada e presente;
  • Crescimento pessoal: capacidade de perceber um contínuo desenvolvimento pessoal, com abertura para novas experiências e seu potencial de crescimento perante aos desafios apresentados.

Nesse sentido, podemos perceber que a promoção do bem-estar psicológico pode assumir diferentes facetas e, dessa forma, os benefícios psicológicos da prática da atividade física podem, também, ser observados dentro dessa perspectiva de promoção do bem-estar psicológico.

Mas quais seriam esses benefícios psicológicos ligados à prática da atividade física?

No geral, os benefícios psicológicos da prática da atividade física podem ser notados pela melhoria da autoestima, da imagem corporal, da autoconfiança, melhor capacidade de funcionamento cognitivo, aumento da capacidade de percepção e controle pessoal, da motivação, dos estados de humor, das atitudes e emoções. Além disso, podemos perceber uma diminuição dos níveis de estresse, ansiedade e depressão[2,3,5,6].

Dessa forma, ao voltarmos para a ideia de que o bem-estar psicológico advém de um equilíbrio entre aspectos positivos e negativos em diferentes instâncias da nossa vida, conseguimos entender como os benefícios psicológicos da prática da atividade física, citados anteriormente, contribuem com o aumento dos aspectos positivos e, consequentemente, com o crescimento do bem-estar psicológico.

Além disso, precisamos entender que a atividade física é uma importante promotora de saúde em todos os níveis, contribuindo ativamente para o bem-estar físico, social e psicológico[2,3,5,7].

Em suma, a prática da atividade física traz benefícios para a adoção de hábitos e de um estilo de vida mais positivo, os quais contribuem diretamente com melhores níveis de bem-estar e qualidade de vida, os quais independem de gênero e de idade.


Referências

[1] ROY, Shephard. Physical Activity, Health, and Well-Being at Different Life Stages. Research Quarterly for Exercise and Sport. Quebec, 1995, v.6, n.4, p.298-302. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1080/02701367.1995.10607915>. Acesso em: 27/06/2020.

[2] CID, Luís; SILVA, Carlos; ALVES, José. Atividade física e bem-estar psicológico – perfil dos participantes no programa de exercício e saúde de Rio Maior. Motricidade. Santa Maria da Feira, 2007, v.3, n.2, p.47-55. Disponível em: <http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1646-107X2007000200010&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 27/06/2020.

[3] RODRIGUES, Nuno Miguel Viegas. Contributos da prática de atividade física no estilo de vida e no bem-estar psicológico: estudo com alunos do ensino superior da Universidade do Algarve. Dissertação (Mestrado em Psicologia da Educação) – Universidade do Algarve, Faro, 2012. Disponível em: <http://hdl.handle.net/10400.1/3495>. Acesso em: 27/06/2020.

[4] RYFF, Carol; KEYES, Corey. The structure of psychological well being revisited. Journal of Personality and Social Psychology. Madison, 1995, v.69, n.4, p.719-727. Disponível em: <https://psycnet.apa.org/record/1996-08070-001>. Acesso em: 27/06/2020.

[5] ASSUMPÇÃO, Luís Otávio; MORAIS, Pedro Paulo; FONTOURA, Humberto. Relações entre atividade física, saúde e qualidade de vida: notas introdutórias. Revista Digital. Buenos Aires, 2002, ano 8, n.53. Disponível em <http://www.efdeportes.com/>. Acesso em: 27/06/2020.

[6] MOUTÃO, João; TEIXEIRA, Fabiana; VITORINO, Anabel; ALVES, Susana; CID, Luís. Relação entre o género, idade, tipo de atividade física praticada e bem-estar psicológico. Revista UilPS. Santarém, 2014, v.2, n.3, p.169-178. Disponível em: <https://www.researchgate.net/publication/272786881_Relacao_entre_o_genero_idade_tipo_de_atividade_fisica_praticada_e_bem-estar_psicologico>. Acesso em: 27/06/2020.

[7] SAMULSKI, Dietmar. Psicologia do Esporte. São Paulo: Editora Manole, 2002.

Arthur Serraino
Psicólogo clínico, esportivo e orientador profissional. Especialista em Orientação Profissional e de Carreira e Orientação Profissional para Universitários pela Universidade de São Paulo (USP). CRP 06/135089

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