Meu filho precisa de disciplina!

O que você faz quando sua criança não se comporta? Que tipo de castigos estão acordados na família? Sente que cada dia está perdendo mais “as rédeas” da educação de sua criança? Se pergunta “o que falta fazer para que meu filho obedeça?” . O assunto desta coluna é sobre a disciplina.

Criar um filho não é uma tarefa fácil. Lidamos o todo tempo com: problemas, trabalho, tarefas de casa, alimentação, saúde, escola, ensino de valores, mau comportamento e muito mais. Na maioria das vezes só queremos que a criança se comporte e respeite nosso “não”. Estamos tão cansados que não queremos explicar, então dizemos “não”, mas a criança não entende e começa a fazer birra. O que acontece? Perdemos a paciência e acabamos gritando e até dando algumas palmadas, algumas vezes. Qual a consequência disso? Cada dia a criança fica mais afrontosa, testando nossos limites e nos perguntamos o que mais podemos fazer porque já estamos dando nosso máximo e seguindo os ensinamentos de nossos pais.

LISTA PARA DISCIPLINAR MEU FILHO:
Castigos:

Ficar sem eletrônicos
Não poder ver os amigos
Tirar os brinquedos
Não dar o tênis novo
Sem sobremesa no jantar
Não irá no passeio
Passar o dia no quarto
vai o tempo todo para o cantinho do pensamento
Apanhar

ATENÇÃO!!! esta lista não funciona, não siga esta lista!


Lembra quando seus pais agiam assim com você? Como você se sentia? O que passava por sua cabeça? Eu lembro de ficar muito magoada e irritada com eles, não me sentia entendida em minhas necessidades, ficava confusa de meus sentimentos por eles. Quando me castigavam sentia raiva e tinha medo dessa emoção, porque aprendi que ela era uma emoção “feia” de sentir. Imagina você criança, sendo invalidado por seus pais porque estava tentando fazer algo legal, mas que deu errado? Logicamente que você vai ficar com raiva por não ser entendido por eles, ainda vai pensar que eles não te amam por estarem te punindo, quando você estava apenas tentando se divertir e ter a atenção deles. Nesse momento, vinha o pensamento de que você atrapalhava a vida de seus pais e que talvez fosse melhor você não existir.

É importante entendermos que os pais são como reis e rainhas e tudo o que dizem é verdadeiro, as crianças acreditam fielmente em seus pais, seus comportamentos e palavras são entendidos ao pé da letra. Ou seja, quando ficamos com raiva do comportamento da criança e lhe damos um “castigo = punimos nossa criança”, ela provavelmente acreditará que não é amada, que não é boa o suficiente, que não merece ser feliz, que não é importante, que só atrapalha a vida de seus pais e que deveria não existir, além de muitos outros pensamentos que podem surgir. Quando estamos em desenvolvimento, através de nossa percepção de mundo, vamos aprendendo com nosso ambiente. Como não nascemos com as ferramentas refinadas para saber como lidar nas situações e nosso cérebro permanece por um tempo em maturação, precisamos da ajuda dos adultos para nos ensinar a sermos mais flexíveis e abstratos no que entendemos sobre o mundo. Ou seja, precisamos nos sentir amados, seguros e cuidados o tempo todo, até que tenhamos maturidade suficiente para seguirmos sozinhos.
As crianças não são mau educadas conosco por maldade, porque querem! Existem muitos fatores que contribuem para o seu comportamento nas variadas fases de desenvolvimento.

Algumas causas podem ser:

seu cérebro não está maduro suficientemente,
sua impulsividade pode estar desregulada,
a busca por prazer imediato pode estar muito ativada,
a criança pode ter dificuldade em comunicar o que deseja,
a criança pode não entender o que precisa e está confusa,
a criança pode não saber como lidar de forma diferente,
a criança precisa testar até onde consegue ir conosco,
a criança pode ter intolerância à frustração,
a criança poder ter problemas em entender o que significa a palavra “não”

ou

nós não estamos sabendo lidar de forma diferente, estamos comunicando algo que pode estar confundindo a criança, não estamos conseguindo confiar na criança e ela sente isso, não sabemos as ferramentas adequadas para lidar com elas e perdemos o controle, a criança aprende também por observação e imitação, a forma como agimos influência na forma como ela agirá também.

Muitos outros fatores poderiam se encaixar, esses são apenas alguns exemplos para que possamos refletir um pouco sobre as possibilidades. Entenda que não somos pessoas horríveis por não estarmos conseguindo disciplinar nossas crianças ou por estarmos escolhendo métodos errados, que as fazem sofrer! Fazemos o nosso melhor, dentro das ferramentas que aprendemos ao decorrer de nossas vidas. Então, que tal tentarmos algo novo e vemos que resultado obtemos?

Comecemos pelo real objetivo da disciplina. A palavra “disciplina”, vinda do latim disciplina, foi usada para se referir a ensinar, aprender e dar instruções. Perceba que o “castigo” não está associado à disciplina. Ainda assim, o castigo é muito usado hoje em dia quando pensamos em disciplina. Por quê? Isso está muito ligado a forma como fomos criados por nossos pais e o quanto acreditavam que o castigo disciplina as pessoas. Mas vamos pensar, quando nossos pais nos castigavam, aprendíamos ou obedecíamos por medo? Muito provavelmente, obedecíamos por medo, principalmente de apanhar! Acabamos reproduzindo esta forma de manejar a educação de nossos filhos automaticamente, por não conhecermos outras formas de manejar sua criação e até porque ouvimos de nossos familiares que a forma certa é castigar, porque você foi criado assim e “funcionou”.

Pois bem! Hoje entendemos que a maneira como agimos com nossos filhos influencia no modo como eles enxergam o mundo e como reagirão diante dos problemas. Então, antes de reagir ao mau comportamento de sua criança reflita sobre três perguntas, como trazem Siegel e Byson (2019): Por quê? O que? Como?

  • 1) Por que meu filho está agindo dessa maneira?
  • 2) Que lição eu quero ensinar, neste momento?
  • 3) Como posso ensinar melhor esta lição?

Refletindo sobre:

  1. Por que meu filho está agindo dessa maneira?

Vários pensamentos podem surgir, como: “ele faz isso para testar minha paciência”, “para me provocar”, “pra me irritar”, “por ser mimado”. Mas, se atente no que pode estar por trás de seu mau comportamento. Provavelmente encontraremos a principal razão, de que ele estava tentando fazer ou expressar algo, mas que não conseguiu lidar adequadamente com isso

2. Que lição eu quero ensinar, neste momento?

Reflita sobre a real lição deseja que seu filho aprenda. Vale lembrar que lição não é sinônimo de punição e castigo. Pensa que sua ideia, a partir do comportamento do seu filho, é lhe ensinar autocontrole, valores, maneiras responsáveis de agir, entre outras coisas.

3. Como posso ensinar melhor esta lição?

Cada pessoa internaliza ensinamentos de uma forma diferente. Qual o modo mais eficiente de comunicar o que queremos transmitir, levando em conta sua idade e maturidade? Encontre a maneira mais amorosa e eficiente de ajudar seu filho a compreender a lição desejada.

Essa tarefa não é fácil no início, a perda do controle ocorrerá muitas vezes. Mas quanto mais treinamos, mais esse movimento vai se tornando um hábito. Nós vamos conseguindo enxergar com mais clareza o que acontece na relação entre nós e nosso filho. Os filhos constroem habilidades e caráter para tomarem boas decisões no futuro.


LEIA MAIS COLUNAS:
Depressão não é frescura!
Por que somos tão preocupados?
Como você lida com emoções desagradáveis?


Referências

CAMINHA, M, CAMINHA, R & colaboradores. Intervenções e Treinamento de Pais na Clínica Infantil. Editora Sinopsys, 2011.
NELSEN, J. Disciplina Positiva. Editora Manole, 2015.
SIEGEL, D.,BRYSON, T. Disciplina Sem Drama. Guia Prático para Ajudar na Educação, Desenvolvimento e Comportamento dos seus Filhos. Editora Versos, 2019.
YOUNG, J. Terapia do Esquema. Guia de Técnicas Cognitivo-comportamentais Inovadoras. Editora Artmed, 2008.

Fransuellen Avila
Psicóloga clínica com foco na terapia cognitivo comportamental. CRP: 07/32383

Faça um comentário

Deixe seu comentário

Artigos Relacionados

Redes Sociais

3,697FãsCurtir
603SeguidoresSeguir
56SeguidoresSeguir

Atualizações