Mídias Sociais e Saúde Mental

Com a expansão do uso das mídias sociais no nosso cotidiano, como Facebook, Instagram, TikTok, Twitter, YouTube etc., aumentamos também nossa preocupação com os seus impactos na saúde mental das pessoas.

A presença das mídias sociais e a maneira como nos relacionamos com elas em nosso dia-a-dia tem influenciado, muitas vezes, nossos padrões de consumo, padrões de beleza etc., ou seja, nosso estilo de vida, no sentido de estabelecer uma dinâmica de influência sobre nossas necessidades. Dessa forma, as mídias sociais assumem uma posição responsável por orientar nossos comportamentos e hábitos na direção da satisfação de necessidades e de um bem-estar virtual, os quais são reflexo do próprio ambiente das mídias sociais e que nem sempre correspondem com a nossa realidade.

A busca pelo prazer, como estilo de vida, através das mídias sociais e dos padrões estabelecidos pelas mesmas, a fim de atingir um determinado “status quo” dos padrões de beleza, comportamento e consumo, cria um espaço entre aquilo que é real e virtual, aquilo que é um gosto ou desejo meu e aquilo que é imposto pelas próprias mídias sociais[1]. Com isso, passamos a nos reconhecer nessa realidade, buscando-a a todo custo e, assim, afastando cada vez mais da possibilidade de nos compreendermos e perceber nossa real existência e desejos.

Assim, quando olhamos para nós não nos reconhecemos mais, pois nossa realidade estará dentro daquela lógica virtual de felicidade e perfeição. Desse modo, tentamos preencher um vazio criado por nós mesmos, e isso nos leva a um ciclo vicioso de perda dos nossos desejos e da busca por uma realidade feliz e perfeita[2], a qual vivenciamos todos os dias nas mídias sociais.

Essa necessidade e busca – por pertencer a uma realidade idealizada, expressa pelas mídias sociais – cria uma lógica de perda de sentido, diminuição da autoestima, sentimento de rejeição e incapacidade, julgamento negativo, autocensura e auto reprovação[1].

Logo, esse ciclo imposto pelas mídias sociais impõe um novo ciclo de sucessivas perdas, onde, em um primeiro momento, os nossos gostos e desejos vão dando lugar a padrões pré-determinados, na sequência a autoestima e o bem-estar psicológico[3] vão sendo perdidos, na medida em que nossa auto-aceitação, autonomia e propósito de vida diminuem e, por fim, nossa própria existência e individualidade se perdem para dar lugar àquilo imposto pelas mídias sociais[4,5].

Essa exposição constante às mídias sociais vai ampliando cada vez mais a distância entre o que é real e o que é idealizado. Ao considerarmos, então, os conteúdos publicados e a maneira como muitos deles evidenciam e reforçam determinados tipos de comportamentos, padrões estéticos, estilos de vida e hábitos de consumo, percebemos mais claramente os impactos na saúde mental das pessoas e como isso contribui com o surgimento de transtornos psiquiátricos, quadros depressivos, de ansiedade e baixa autoestima[1,6,7,8,9].

Além disso, o uso excessivo das redes sociais pode contribuir com o distanciamento dos membros familiares e do círculo social não virtual, diminuição do convívio e da comunicação, levando muitas vezes a sentimentos depressivos e de solidão[7] e até mesmo a quadros de dependência pelas mídias socias[8]. Outra consequência dessa exposição excessiva está ligada ao tipo de conteúdo consumido, que pode estar associada à disseminação de violência e cyberbullying, o que afeta também a saúde mental destes usuários[9].

Portanto, é importante estar sempre atento à frequência que se utiliza as redes e no conteúdo que é consumido através da internet e das mídias sociais, buscando sempre estabelecer vínculos mais saudáveis consigo mesmo e poder ter uma divisão mais clara daquilo que é o meu gosto e meu desejo daquilo que é um padrão imposto pelas mídias sociais.


LEIA TAMBÉM: Atividade física e bem-estar psicológico


Referências

[1] BRUNELLI, Priscila Barbosa; AMARAL, Shirlena Campos de Souza; SILVA, Pauline Aparecida Ildefonso Ferreira da. Autoestima alimentada por “likes”: uma análise sobre a influência da indústria cultural na busca pela beleza e o protagonismo da imagem nas redes sociais. Revista Philologus. Rio de Janeiro, 2019, v.25, n.53, p.226-236. Disponível em <http://www.filologia.org.br/rph/ANO25/73supl/19.pdf>. Acesso em: 12/07/2020.

[2] KEHL, Maria Rita. O espetáculo como meio de subjetivação. Concinnitas. Rio de Janeiro, 2015, v.1, n.26, p.71-85. Disponível em: <https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/concinnitas/article/view/20102>. Acesso em: 18/07/2020.

[3] RYFF, Carol; KEYES, Corey. The structure of psychological well being revisited. Journal of Personality and Social Psychology. Madison, 1995, v.69, n.4, p.719-727. Disponível em: <https://psycnet.apa.org/record/1996-08070-001>. Acesso em: 12/07/2020.

[4] DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

[5] ADORNO, Theodor. Indústria cultural e sociedade. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

[6] LIRA, Ariana Galhardi; GANEN, Aline de Piano; LODI, Aline Sinhorini; ALVARENGA, Marle dos Santos. Uso de redes sociais, influência da mídia e insatisfação com a imagem corporal de adolescentes brasileiras. Jornal Brasileiro de Psiquiatria. Rio de Janeiro, 2017, v.66, n.3, p.164-171. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/0047-2085000000166>. Acesso em: 12/07/2020.

[7] SILVA, Paulo Hernandes Gonçalves da Silva. A influência da mídia na autoimagem de adolescentes: uma análise do discurso nas redes sociais. Philologus. Rio de Janeiro, 2020, n.76, p.79-89. Disponível em: <http://www.filologia.org.br/>. Acesso em: 19/07/2020.

[8] PANTIC, Igor. Online Social Networking and Mental Health. Cyberpsychology, Behavior and Social Networking. Belgrado, 2014, v.17, n.10, p.652-657. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4183915/>. Acesso em: 12/07/2020.

[9] ABJAUDE, Samir Antonio Rodrigues; PEREIRA, Lucas Borges; ZANETTI, Maria Olívia Barboza; PEREIRA, Leonardo Régis Leira. Como as Mídias Sociais influenciam na Saúde Mental?. SMAD, Revista Eletrônica Saúde Mental Álcool e Drogas. Revista Eletrônica, 2020, v.16, n.1, p.1-3. Disponível em: <www.revistas.usp.br/smad/>. Acesso em: 12/07/2020.

Arthur Serraino
Psicólogo clínico, esportivo e orientador profissional. Especialista em Orientação Profissional e de Carreira e Orientação Profissional para Universitários pela Universidade de São Paulo (USP). CRP 06/135089

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