Felicidade e Saúde Mental

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A busca pela felicidade tem se tornado algo cada vez mais comum em nosso cotidiano. Vivemos um momento no qual ser feliz tornou-se uma exigência em nossa sociedade, uma vez que estar feliz é desejável, é sinônimo de sucesso e é também o outro extremo da depressão um dos transtornos mentais mais comuns na atualidade, além de ter se tornado a principal causa de incapacidade no meio social, no trabalho e na educação[1].

No entanto, a felicidade é uma emoção primária, caracterizada, segundo Ferraz, Tavarez & Zilberman[2], como um “estado emocional positivo, com sentimentos de bem-estar e de prazer, associados à percepção de sucesso e à compreensão coerente e lúcida do mundo”.

A felicidade está relacionada com diferentes experiências, sensações e emoções. Assim, em lado temos, os fatores promotores da felicidade, como o amor, a alegria, a saúde, a satisfação sexual, a segurança etc. e, em outro lado, aqueles que atenuam a felicidade, como o medo, a raiva, a ansiedade, a dor, o sofrimento etc.[2]

Entretanto, a concepção de felicidade e de estar feliz é algo subjetivo, apresentando variações entre diferentes culturas, contextos sociais e pessoas. Com isso, faz-se importante pensar em maneiras capazes de mensurar e avaliar a felicidade. Diener, Lucas & Oishi[3], trabalham com o conceito de bem-estar subjetivo como sinônimo de felicidade, pensando nas experiências emocionais agradáveis, nos baixos níveis de humor negativo e na satisfação positiva em relação à vida. Além disso, o bem-estar subjetivo é uma das maneiras de avaliar a qualidade de vida das pessoas[4], a partir da observação das emoções positivas e negativas, seu equilíbrio e prevalência.

Nesse sentido, ao observarmos o bem-estar subjetivo ou felicidade, conseguimos perceber a maneira como esse sentimento se relaciona positivamente com a promoção da autoestima[5,6] e, consequentemente, com a promoção e manutenção dos componentes do bem-estar psicológico (autoaceitação; relações positivas; autonomia; domínio do ambiente; propósito de vida; crescimento pessoal)[7]. No entanto, é importante observar que o bem-estar psicológico ou felicidade não é sinônimo de saúde mental ou saúde psicológica[8,9], mas uma forma de promovê-la.

A promoção da saúde é um conceito que diz respeito ao conjunto e relação de diferentes fatores, como qualidade de vida, saúde, solidariedade, bem-estar físico e psicológico etc., atrelados às políticas públicas, sociedade, assistência à saúde e aos próprios indivíduos[10,11,12]. Desse modo, podemos dizer que, apesar do bem-estar subjetivo ou felicidade ser uma experiência individual com relação à vida, a felicidade está objetivamente relacionada à promoção da saúde[10] ao favorecer o aumento da qualidade de vida e do bem-estar psicológico, por exemplo.

Assim, quando pensamos na ampliação da qualidade de vida para a promoção da saúde, estamos observando o aumento da capacidade de autonomia e crescimento e desenvolvimento pessoal[11] das pessoas diante de situações em seu cotidiano. Além disso, podemos observar que o aumento do bem-estar psicológico[7] relacionado, principalmente, à autoaceitação e ao domínio do ambiente, promovem saúde na medida em que essa pessoa cria e amplia suas habilidades pessoais, ambientes favoráveis à sua saúde e ao seu envolvimento comunitário[12].

Portanto, a busca pela felicidade e, principalmente, estar feliz pode ser visto como sinônimo de sucesso. Contudo, pode ser também uma importante forma de promover nossa saúde mental e saúde psicológica através do aumento da nossa qualidade de vida e de nosso bem-estar psicológico.


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Referências

[1] FOLHA informativa – Depressão. OPAS Brasil, 2018. Disponível em <https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5635:folha-informativa-depressao&Itemid=1095>. Acesso em: 26/07/2020.

[2] FERRAZ, Renata Barboza; TAVARES, Hermano; ZILBERMAN, Monica L. Felicidade: uma revisão. Revista de psiquiatria clínica. São Paulo, 2007, v.34, n.5, p.234-242. Disponível em: <https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-60832007000500005>. Acesso em: 25/07/2020.

[3] DIENER, Ed; LUCAS, Richard E.; OISHI, Shigehiro. Subjective well-being: The science of happiness and life satisfaction. In: Handbook of positive psychology. New York: Oxford University Press, 2005. Disponível em: <https://eddiener.com/articles/1267>. Acesso em: 26/07/2020.

[4] DIENER, Ed; LUCAS, Richard E.; OISHI, Shigehiro. Personality, culture and Subjective Well-Being: emotional and cognitive evaluations of life. Annual Review of Psychology. Palo Alto, 2003, v.1, n.54, p.403-425. Disponível em: <https://www.researchgate.net/publication/11215086_Personality_Culture_and_Subjective_Well-Being_Emotional_and_Cognitive_Evaluations_of_Life>. Acesso em: 26/07/2020.

[5] GRAZIANO, Lilian D. A felicidade revisitada: um estudo sobre o bem-estar-subjetivo na visão da psicologia positiva. 2005. Tese (Doutorado em Psicologia) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005. Disponível em: <https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47131/tde-23052006-164724/en.php>. Acesso em: 26/07/2020.

[6] COLETA, José Augusto Dela; COLETA, Marilia Ferreira Dela. Felicidade, bem-estar subjetivo e comportamento acadêmico de estudantes universitários. Psicologia em Estudo. Marília, 2006, v.11, n.3, p.533-539. Disponível em: <https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-73722006000300009&script=sci_arttext&tlng=pt>. Acesso em: 26/07/2020.

[7] RYFF, Carol; KEYES, Corey. The structure of psychological well being revisited. Journal of Personality and Social Psychology. Madison, 1995, v.69, n.4, p.719-727. Disponível em: <https://psycnet.apa.org/record/1996-08070-001>. Acesso em: 12/07/2020.

[8] GIACOMONI, Claudia Hofheinz. Bem-estar subjetivo infantil: conceito de felicidade e construção de instrumentos para avaliação. 2002. Tese (Doutorado em Psicologia) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2002. Disponível em: <https://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/3158>. Acesso em: 26/07/2020.

[9] DIENER, Ed. Subjective well-being: The science of happiness, and a proposal for a national index. American Psychologist. Illinois, 2000, v.1, n.55, p.34-43. Disponível em: <https://eddiener.com/articles/975>. Acesso em: 26/07/2020.

[10] SCORSOLINI-COMIN, Fabio; SANTOS, Manoel Antônio dos. O estudo científico da felicidade e a promoção da saúde: revisão integrativa da literatura. Revista Latino-Americana de Enfermagem. São Paulo, 2010, v.18, n.3, p.188-195. Disponível em: <https://www.redalyc.org/articulo.oa?id=281421933025>. Acesso em: 26/07/2020.

[11] CAMPOS, Maryane Oliveira; NETO, João Felício Rodrigues. Qualidade de vida: um instrumento para promoção de saúde. Revista Baiana de Saúde Pública. Salvador, 2008, v.2, n.32, p.232-240. Disponível em: <http://rbsp.sesab.ba.gov.br/index.php/rbsp/article/view/1438/1075>. Acesso em: 26/07/2020.

[12] BUSS, Paulo Marchiori. Promoção da saúde e qualidade de vida. Ciência & Saúde Coletiva. Rio de Janeiro, 2000, v.1, n.5, p.163-177. Disponível em: <https://www.scielosp.org/article/csc/2000.v5n1/163-177/>. Acesso em: 26/07/2020.

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