O que não te contam sobre a ansiedade

A ansiedade é uma resposta cerebral diante de um medo ou preocupação, real ou imaginário, com o objetivo de autoproteção. Esta resposta é uma herança biológica deixada pelos nossos ancestrais, que viviam rodeados de ameaças reais, onde precisavam estar sempre alertas aos perigos para manterem-se vivos. Ou seja, o medo e a preocupação estavam a serviço de sua proteção.

Com a evolução humana, hoje em dia já não precisamos ter medo de sermos devorados por predadores ou comermos alguma planta tóxica, mas nossos cérebros ainda são dominados pelos velhos instintos, que quando ativados por algum medo ou preocupação, agimos como se estivéssemos na idade da pedra entrando em estado de alerta e apresentando os mesmos sintomas que antes serviam para nos ajudar a nos proteger.

Presta atenção! Quando ficamos ansiosos apresentamos alguns dos sintomas:

inquietação, hipervigilância, taquicardia, cansaço muscular, suor, fadiga, palpitação, dor no peito, falta de ar ou respiração rápida, boca seca, náusea, entre outros.

Tudo isso acontece porque o cérebro entende que há um risco eminente e que é preciso “preparar o corpo” para enfrentá-lo. Então, o coração bombeia o sangue com mais rapidez para levar mais sangue às regiões musculares para que possamos ficar mais preparados/fortes e podermos escolher lutar ou fugir do risco que ativou a ansiedade. Isso significa que, embora seja muito desconfortável e angustiante a sensação de estar ansioso, não precisamos temer a morte, após alguns minutos o mal estar irá passar!

Para um melhor entendimento sobre os transtornos de ansiedade e de que forma a família pode lidar com eles, é preciso explicar um pouco das características de cada um deles. Nos adultos, a ansiedade aparece através de fobias específicas: Transtorno de Pânico, Transtorno Obssessivo-Compulsivo (TOC), Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), Transtorno de Ansiedade Social (TAS), Agorafobia e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). Além da possibilidade dos transtornos até o momento, nas crianças, a ansiedade pode aparecer também através do Transtorno de Ansiedade de Separação e Mutismo Seletivo. Muitos dos transtornos se desenvolvem na infância e tendem a persistir, inclusive na fase adulta, se não forem tratados. Os sintomas de cada transtorno pode ser diferente, mas a percepção da pessoa frente a uma ameaça real ou imaginária, gera ansiedade e medo.


Entendendo melhor sobre cada transtorno de acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais-DSM-5:

Transtorno de Ansiedade de Separação: “Medo ou ansiedade impróprios e excessivos em relação ao estágio de desenvolvimento da criança, envolvendo a separação daqueles com quem ela tem apego.”

Mutismo Seletivo: “Fracasso persistente para falar em situações sociais específicas nas quais existe a expectativa para tal (p. ex., na escola), apesar de falar em outras situações. A perturbação interfere na realização educacional ou profissional ou na comunicação social.”

Transtorno de Ansiedade Social (TAS ou Fobia Social):  “Medo ou ansiedade acentuados acerca de uma ou mais situações sociais em que o indivíduo é exposto a possível avaliação por outras pessoas. Exemplos incluem interações sociais (p. ex., manter uma conversa, encontrar pessoas que não são familiares), ser observado (p. ex., comendo ou bebendo) e situações de desempenho diante de outros (p. ex., proferir palestras). Em crianças, a ansiedade deve ocorrer em contextos que envolvem seus pares, e não apenas em interações com adultos.”

Transtorno de Pânico: “Ataques de pânico recorrentes e inesperados. Um ataque de pânico é um surto abrupto de medo intenso ou desconforto intenso que alcança um pico em minutos.”

Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG): “Ansiedade e preocupação excessivas (expectativa apreensiva),com diversos eventos ou atividades (tais como desempenho escolar ou profissional). O indivíduo considera difícil controlar a preocupação.”

Agorafobia: “Medo ou ansiedade marcantes acerca de duas (ou mais) das cinco situações seguintes:

  • Uso de transporte público (p. ex., automóveis, ônibus, trens, navios, aviões);
  • Permanecer em espaços abertos (p. ex., áreas de estacionamentos, mercados, pontes);
  • Permanecer em locais fechados (p. ex., lojas, teatros, cinemas);
  • Permanecer em uma fila ou ficar em meio a uma multidão;
  • Sair de casa sozinho.

O indivíduo tem medo ou evita essas situações devido a pensamentos de que pode ser difícil escapar ou de que o auxílio pode não estar disponível no caso de desenvolver sintomas do tipo pânico ou outros sintomas incapacitantes ou constrangedores (p. ex., medo de cair nos idosos; medo de incontinência).”

Os dois abaixo não estão dentro dos transtornos de de ansiedade, mas se caracterizam pelos mesmos sintomas de medo e preocupação:

Transtorno Obssessivo-Compulsivo (TOC): “O TOC é caracterizado pela presença de obsessões e/ou compulsões. Obsessões são pensamentos, impulsos ou imagens recorrentes e persistentes que são vivenciados como intrusivos e indesejados, enquanto compulsões são comportamentos repetitivos ou atos mentais que um indivíduo se sente compelido a executar em resposta a uma obsessão ou de acordo com regras que devem ser aplicadas rigidamente. Embora este transtorno não esteja dentro dos transtornos de ansiedade, alguns transtornos obsessivo-compulsivos também são caracterizados por preocupações e por comportamentos repetitivos ou atos mentais em resposta a preocupações.”

Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT): “Caracterizado por sofrimento psicológico ligado à exposição a um evento traumático ou estressante. Em alguns indivíduos as características clínicas mais proeminentes são sintomas externalizações como raiva e agressividade. Embora este transtorno não esteja dentro dos transtornos de ansiedade, em muitos casos, os sintomas podem ser bem entendidos em um contexto de ansiedade ou medo, como nos transtornos de ansiedade.”


Como identificar a ansiedade?

Prestando atenção nos pensamentos que ativam o sentimento:

  • E se…?
  • Será que…?
  • Me preocupa…?
  • Esperar que aconteçam coisas assustadoras
  • Procurar possíveis ameaças
  • Ter a expectativa de não conseguir lidar com a situação
  • Avaliar o desempenho como fraco
  • Analisar quais gatilhos e ambientes estão envolvidos na ansiedade
  • Analisar o quanto os medos correspondem a eventos reais ou imaginários
  • Analisar se os medos não fazem parte do desenvolvimento normal, quando se refere a ansiedade de uma criança
  • Perceber até que ponto a ansiedade é decorrente da criança ou se você está transmitindo a ansiedade para ela
  • Identificar se lugares/ eventos assustadores são evitados
  • Perceber sintomas, como: coração acelerado, respiração curta, sudorese, rubor, visão turva, tontura, nervosismo e outros listados no início do texto.

O que ajuda na ansiedade?

  • Validar a ansiedade, pois a pessoa não está ansiosa porque deseja;
  • Aceitar que todos temos ansiedade e que ela nos protege;
  • Entender o que temos controle e o que está fora do nosso controle;
  • Dividir as preocupações em partes menores para que possa ir resolvendo uma por vez;
  • Fazer alguma atividade prazerosa que vise a calma e a  saúde mental, como o yoga e a meditação.

Comportamento parental associado a ansiedade da criança:

  • Superprotetores e controladores;
  • Modeladores do comportamento ansioso;
  • Encorajadores de comportamentos de evitação dos eventos ansiosos;
  • Reforçadores de cognições (pensamentos) de ansiedade;
  • Família carente de uma estrutura parental clara e consistente;

Comportamento parental que encoraja o enfrentamento adequado da ansiedade:

  • Encorajadores de independência;
  • Incentivar comportamento de enfrentamento adequado;
  • Lembrar que você é a referência comportamental do seu filho;
  • Reforçar e recompensar comportamentos de enfrentamento;
  • Proporcionar uma estrutura parental firme, imparcial e consistente.

Como posso ajudar meu filho?

Percebendo sua própria ansiedade e de que forma ela pode estar trazendo prejuízos a você e sua família (importante não se julgar, afinal não é culpa sua sentir e transmitir ao seu filho)

Buscando ajuda psicológica para você e seu filho, para que possam aprender a manejar o sentimento de forma adequada.

Leia mais sobre o assunto na coluna: “Por que somos tão preocupados?”.


LEIA MAIS COLUNAS:
Como você lida com emoções desagradáveis?
Meu filho precisa de disciplina!
Depressão não é frescura!


Referências:

American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos mentais DSM-5, 5° EDIÇÃO, Artmed, 2014.

LEAHY, R. Livre de Ansiedade. Artmed, 2011.

STALLARD, P. Ansiedade: Terapia Cognitivo-comportamental para crianças e jovens. Artmed, 2010.

Fransuellen Avila
Psicóloga clínica com foco na terapia cognitivo comportamental. CRP: 07/32383

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