Os possíveis elos entre o microbioma intestinal e a gravidade da COVID-19

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Não é novidade que o novo coronavírus (SARS-CoV-2) ataca principalmente o sistema respiratório dos infectados. No entanto, um possível envolvimento do intestino e do seu microbioma têm despertado a curiosidade dos cientistas. Já se sabe, por exemplo, que existe uma relação entre a composição do microbioma intestinal e o perfil imunológico das pessoas [1-3]

O microbioma intestinal consiste em trilhões de microrganismos que residem em nosso intestino, desempenhando um papel fundamental em nossa saúde. Enquanto damos aos microrganismos uma casa e nutrição, eles, por sua vez, regulam várias funções fisiológicas do corpo, nos ajudando de diferentes formas. 

Foi reportado recentemente que o novo coronavírus pode ser detectado nas fezes de pessoas infectadas [4]. Isso inclusive levantou preocupações de que, com o esgoto, “poderemos estar despejando nos rios uma enorme carga viral” [5]

Não bastasse isso, alguns pacientes com COVID-19 também apresentam sintomas como diarreia [6]. Este assunto é tratado em uma revisão recentemente publicada na revista Virus Research, na qual os pesquisadores exploram a possibilidade de envolvimento do chamado “eixo intestino-pulmão” – que é o termo usado para se referir aos “diálogos” entre os pulmões e o intestino –  e o resultado da manifestação clínica da COVID-19 [7].


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Alterações do microbioma intestinal, às vezes coletivamente chamadas de “disbiose intestinal”, já se mostraram associadas a várias doenças e distúrbios, como a doença inflamatória intestinal [8], diabetes tipo 2 [9], depressão [10] e, até mesmo, doenças cardiovasculares [11]. Além disso, já foram publicados estudos que demonstraram que as infecções respiratórias estão associadas a uma mudança na composição do microbioma intestinal [12]

Os pulmões e a microbiota intestinal influenciam-se mutuamente e essa relação pode manter seus pulmões saudáveis (ou não). A inflamação em um desses órgãos interfere diretamente no perfil inflamatório do outro. As endotoxinas e os metabólitos microbianos podem impactar o pulmão através do sangue e, quando ocorre inflamação no pulmão, isso também pode afetar o microbioma [13]. Assim, levanta-se a possibilidade de que o SARS-Cov2 também possa ter um impacto sobre as
bactérias do nosso intestino.

A composição do microbioma intestinal modula o perfil imunológico, como os perfis pró-inflamatórios e os anti-inflamatórios. O tipo de microrganismo presente no intestino pode jogar esse balanço de um lado para o outro. Por exemplo, algumas bactérias benéficas conseguem converter as fibras vegetais, que nós não conseguimos digerir, em compostos como o butirato, que ajuda a reduzir o perfil inflamatório do ser humano. Uma dieta rica em fibras altera não apenas o microbioma intestinal, mas também poderia afetar a imunidade pulmonar [14].


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Os alimentos podem auxiliar na manutenção e/ou na substituição das bactérias presentes no microbioma intestinal, podendo interferir no equilíbrio entre os perfis pró e anti-inflamatórios. A recente publicação na Virus Research defende que alimentos funcionais possam ser parte de uma profilaxia e, até mesmo, como um complemento ao tratamento de pessoas infectadas com o novo coronavírus.

Mais estudos serão necessários para que se confirme a relação entre determinadas espécies de microrganismos pró-inflamatórios do microbioma intestinal e sua contribuição para respostas imunológicas que tornem a COVID-19 mais grave. Até o momento, com base no que já sabemos sobre o microbioma intestinal, essa é certamente uma possibilidade! 

O que nós podemos recomendar para você é cuidar da sua saúde intestinal, especialmente através da nutrição da microbiota por meio de uma ingestão alimentar rica em fibras, frutas, vegetais e grãos. Isso pode favorecer o sistema imunológico e torná-lo “mais robusto”, aumentando a sua capacidade de combater ataques
virais em cada órgão, inclusive o pulmão.


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Referências Bibliográficas

[1] Kau, A. L., Ahern, P. P., Griffin, N. W., Goodman, A. L., & Gordon, J. I. (2011). Human nutrition, the gut microbiome and the immune system. Nature, 474(7351), 327-336.

[2] Shi, N., Li, N., Duan, X., & Niu, H. (2017). Interaction between the gut microbiome and mucosal immune system. Military Medical Research, 4(1), 1-7.

[3] Rizzetto, L., Fava, F., Tuohy, K. M., & Selmi, C. (2018). Connecting the immune system, systemic chronic inflammation and the gut microbiome: the role of sex. Journal of autoimmunity, 92, 12-34.

[4] Wu, Y., Guo, C., Tang, L., Hong, Z., Zhou, J., Dong, X., … & Kuang, L. (2020). Prolonged presence of SARS-CoV-2 viral RNA in faecal samples. The lancet Gastroenterology & hepatology, 5(5), 434-435.

[5] https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52143119

[6] Chan, J. F. W., Yuan, S., Kok, K. H., To, K. K. W., Chu, H., Yang, J., … & Tsoi, H. W. (2020). A familial cluster of pneumonia associated with the 2019 novel coronavirus indicating person-to-person transmission: a study of a family cluster. The Lancet, 395(10223), 514-523.

[7] Dhar, D., & Mohanty, A. (2020). Gut microbiota and Covid-19-possible link and implications. Virus Research, 198018.

[8] Khan, I., Ullah, N., Zha, L., Bai, Y., Khan, A., Zhao, T., … & Zhang, C. (2019). Alteration of gut microbiota in inflammatory bowel disease (IBD): Cause or consequence? IBD treatment targeting the gut microbiome. Pathogens, 8(3), 126.

[9] Gurung, M., Li, Z., You, H., Rodrigues, R., Jump, D. B., Morgun, A., & Shulzhenko, N. (2020). Role of gut microbiota in type 2 diabetes pathophysiology. EBioMedicine, 51, 102590.

[10] Zalar, B., Haslberger, A., & Peterlin, B. (2018). The role of microbiota in depression-a brief review. Psychiatria Danubina, 30(2), 136-141.

[11] Tang, W. W., Kitai, T., & Hazen, S. L. (2017). Gut microbiota in cardiovascular health and disease. Circulation research, 120(7), 1183-1196.

[12] Groves, H. T., Higham, S. L., Moffatt, M. F., Cox, M. J., & Tregoning, J. S. (2020). Respiratory viral infection alters the gut microbiota by inducing inappetence. Mbio, 11(1).

[13] Dumas, A., Bernard, L., Poquet, Y., Lugo‐Villarino, G., & Neyrolles, O. (2018). The role of the lung microbiota and the gut–lung axis in respiratory infectious diseases. Cellular microbiology, 20(12), e12966.

[14] Trompette, A., Gollwitzer, E. S., Yadava, K., Sichelstiel, A. K., Sprenger, N., Ngom-Bru, C., … & Marsland, B. J. (2014). Gut microbiota metabolism of dietary fiber influences allergic airway disease and hematopoiesis. Nature medicine, 20(2), 159-166.

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