Estresse e controle do estresse

O estresse é um estado normal do nosso corpo provocado pelo desequilíbrio do nosso organismo, através de estímulos psicológicos, fisiológicos ou ambientais[1,2,3]. Esses estímulos, por sua vez, geram diferentes tipos de respostas cognitivas, comportamentais e fisiológicas[2,3], as quais variam de acordo com o tipo de evento estressor e a nossa capacidade de resposta[2].

Esse estado de estresse e as respostas a ele são importantes, uma vez que são mecanismos de proteção, recuperação e sobrevivência do nosso organismo[1,2]. No entanto, estados crônicos de estresse podem gerar consequências negativas sobre a própria resposta ao estresse[1] e, também, distúrbios psico-fisiológicos e um aumento dos fatores de risco para outras doenças, como as cardiovasculares (a hipertensão etc.), metabólicas (diabetes etc.), psicológicas e neuro-degenerativas (transtornos de ansiedade, depressão, doença de Alzheimer e mal de Parkinson)[2].

Nesse sentido, é importante observarmos principalmente as situações e estímulos ambientais geradores de estresse e as nossas respostas, uma vez que estes podem ser observados e controlados com mais facilidade.

Os estímulos ambientais podem, por sua vez, ser divididos em acontecimentos vitais, acontecimentos diários e situações de tensão crônica.

Os acontecimentos vitais podem ser divididos em eventos dependentes e independentes. Os eventos estressores dependentes são aqueles que dependem das nossas respostas, por exemplo como agimos diante das expectativas de uma promoção no nosso trabalho, diante de uma competição esportiva, diante da apresentação de um trabalho ou palestra etc. Os eventos estressores independentes são aqueles que não dependem de nós, por exemplo a morte de pessoas próximas, traumas ou acidentes, contrair algum tipo de doença, entre outros[3].

Além disso, temos os acontecimentos diários que nada mais são do que estímulos estressores menores em nosso cotidiano, como por exemplo perder objetos, ficar preso no trânsito, acordar ao som do despertador ou barulho alto são alguns dos exemplos desse tipo de estímulo[3].

A terceira categoria diz respeito a situações e a estímulos ambientais intensos e que duram longos períodos de tempo, como situações de violência doméstica, assédio moral, bullying, longos períodos de desemprego são exemplos de situações e estímulos dentro dessa categoria[3].

As nossas respostas aos estímulos estressores, por sua vez, se dividem em diferentes níveis: o cognitivo, o comportamental e o fisiológico. O nível cognitivo é o que atua na nossa percepção e avaliação dos estímulos, a fim de buscar as respostas mais adequadas para lidar com a situação estressora, nesse nível a aprendizagem advinda de eventos pregressos é outro fator determinante na seleção das respostas. No nível comportamental ocorrem as respostas de enfrentamento, evitação ou passividade diante da situação ou estímulo estressor. E, por fim, as respostas fisiológicas, são as reações neuroquímicas, hormonais e neuroanatômicas do nosso próprio organismo[3].

Contudo, essas respostas podem ser modificadas para se adaptarem melhor às situações e estímulos estressores. Nesse sentido, as estratégias de coping podem ser utilizadas como um auxílio para manejar e reduzir os níveis de estresse gerados por uma determinada situação ou estímulo.

Assim, é importante definir o que é coping. O conceito de coping diz respeito a esse conjunto de estratégias comportamentais e psicológicas responsáveis por orientar, administrar e minimizar as respostas e os efeitos delas em nosso organismo, a partir de uma situação e/ou estímulo estressor[4,5].

As estratégias de coping representam um conjunto de ações comportamentos ou pensamentos utilizados para lidar com as emoções geradas pelo estímulo estressor ou pela própria situação estressora.

Deste modo, podemos descrever que as estratégias focadas na emoção buscam alterar nosso estado emocional e, consequentemente, as sensações físicas provocadas por ela. Alguns exemplos de estratégias focadas na emoção são: ouvir música, fazer meditação, assistir a um filme, ler um livro, conversar com amigos e praticar atividade física[5].

Por outro lado, podemos caracterizar as estratégias focadas na situação ou problema como aquelas que se dirigem à fonte do estímulo estressor e que são externas a nós, por exemplo um ruído alto para o qual podemos fechar a janela para reduzi-lo, uma situação de conflito no nosso trabalho e que podemos mudar de emprego ou conversar com nosso chefe ou colegas para resolvê-la, entre outras[5].

Desta forma, à medida em que vamos vivenciando situações e estímulos estressores temos, também, a oportunidade de aprender e criar estratégias de enfrentamento destas situações, reavaliando nossas respostas a cada novo evento e criando novas estratégias cada vez mais eficazes[6].

Esse constante processo de avaliação e reavaliação das nossas respostas diante de situações e estímulos estressores é, portanto, importante para o controle do estresse e, consequentemente, dos fatores de risco para as outras doenças ligadas a ele[4,5,7].


Referências

[1] ANTUNES, José. Estresse e Doença: O que diz a evidência? Psicologia, Saúde & Doenças. Lisboa, 2019, v.20, n.3, p.590-603. Disponível em <http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1645-00862019000300004>. Acesso em: 08/08/2020.

[2] LIU, Yun-Zi; WANG, Yun-Xia; JIANG, Chun-Lei. Inflammation: The Common Pathway of Stress-Related Diseases. Frontiers in Human Neuroscience. Lausanne, 2017, v.11, p.1-1. Disponível em: <https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fnhum.2017.00316/full>. Acesso em: 08/08/2020.

[3] MARGIS, Regina; PICON, Patrícia; COSNER, Annelise Formel; SILVEIRA, Ricardo de Oliveira. Relação entre estressores, estresse e ansiedade. In: Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2003, v.25, n.1, p.65-74. Disponível em: <https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-81082003000400008&script=sci_arttext&tlng=pt>. Acesso em: 08/08/2020.

[4] STANTON, Annette L.; TAYLOR, Shelley E. Coping Resources, Coping Processes, and Mental Health. Annual Review of Clinical Psychology. Los Angeles, 2007, n.3, p.377-401. Disponível em: <https://www.annualreviews.org/doi/abs/10.1146/annurev.clinpsy.3.022806.091520>. Acesso em: 12/08/2020.

[5] ANTONIAZZI, Adriane Scomazzon; DELL’AGLIO, Débora Dalbosco; BANDEIRA, Denise Ruschel. O conceito de coping: uma revisão teórica. Estudos de Psicologia. Porto Alegre, 1998, v.3, n.2, p.273-294. Disponível em: <https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-294X1998000200006&script=sci_arttext&tlng=pt>. Acesso em: 12/08/2020.

[6] LAZARUS, Richard S.; FOLKMAN, Susan. Stress, appraisal, and coping. New York: Springer, 1984.

[7] ABEL, Millicent H. Humor, stress, and coping strategies. Humor. Rochester, 2002, v.15, n.4, p.365-381. Disponível em: <https://www.degruyter.com/view/journals/humr/15/4/article-p365.xml>. Acesso em: 12/08/2020.


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Arthur Serraino
Psicólogo clínico, esportivo e orientador profissional. Especialista em Orientação Profissional e de Carreira e Orientação Profissional para Universitários pela Universidade de São Paulo (USP). CRP 06/135089

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