Cinco mitos sobre o suicídio e a importância do Setembro Amarelo

O setembro amarelo é uma campanha criada com o foco na prevenção ao suicídio. Neste mês, várias formas de reflexão em relação a esse tema são feitas para que o conhecimento sobre o suicídio atinja o maior número de pessoas e nos mais diversos formatos. Além disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) trouxe dados alarmantes no ano passado. Relatou que há cerca de 800 mil mortes por suicídio no ano, como se houvesse 1 suicídio a cada 40 segundos. E no Brasil, entre os anos de 2010 e 2016, o suicídio aumentou 7% no Brasil enquanto que no mundo as taxas de suicídio diminuíram.

Geralmente o ato de tirar a própria vida está ligado a alguns transtornos mentais, como: depressão, bipolaridade, dependência química, transtornos de personalidade, etc. Segundo estudo da Unicamp, 17% dos brasileiros em algum momento já pensaram em tirar a vida e 4,8% já pensaram em um plano para isso. É estimado que de 10 a 20  milhões de pessoas tentam suicídio por ano e que, a cada suicídio consumado, há por volta de 10 pessoas impactadas que sofrem consequências emocionais extremamente graves e difíceis de serem reparadas.

Para trazermos luz a esse tema que ainda parece ser rodeado de tabus, é necessário explorarmos alguns mitos que perpassam os anos e ainda se mostram fortalecidos diante de uma temática tão complexa e delicada.

Mito 1: Falar sobre o tema pode estimular pessoas a tirarem suas vidas.

Por muito tempo se pensou nisso. E se alguém ainda pensa dessa forma, é importante frisar: falar sobre o tema não impulsiona e nem incentiva ninguém ao ato. Falar sobre suicídio abre uma porta principalmente para quem está sofrendo com isso, para que possa relatar o que está sentindo, o que está pensando e se sinta à vontade para pedir ajuda. Além disso, falar sobre suicídio é poder também educar sobre o problema. Muitos que sofrem com isso, não tem o mesmo acesso à informação e não sabem que há tratamento e esperança nesse “abismo”.

Mito 2: Quem está pensando em se matar, se mostra muito triste.

Talvez esse seja um dos mitos mais presentes até hoje. A gente espera que alguém que esteja pensando em se matar esteja necessariamente mostrando em todas as esferas sua tristeza e seu sofrimento. E parece que não é bem assim. Os sinais que a pessoa pode mostrar podem parecer muito sutis no cotidiano. Talvez os sinais só sejam percebidos e entendidos como um “pedido de ajuda” quando a tentativa de suicídio já aconteceu. Geralmente horas antes do suicídio, as pessoas estão vivendo suas vidas normalmente e conseguem mascarar bem sua dor e sofrimento diante da rotina do dia a dia, mas isso não quer dizer que elas não deem sinais.

Mito 3: Quem quer se matar, não avisa ninguém antes.

Os sinais acontecem, mesmo que pequenos e ínfimos. Através da fala pode vir por um: “queria dormir e não acordar mais”, “se eu pudesse, eu queria sumir” e outras falas referentes a despedida. Através do comportamento, os indícios podem vir por um isolamento social bem maior do que o “normal” da pessoa, abuso de substâncias, organização de testamento, entre outros.

Mito 4: O suicídio acontece longe de mim.

Pode ser que nenhuma pessoa próxima a você tenha tentado tirar a vida , mas tenho certeza que muita gente próxima a você já tenha pensado em não viver mais. E se você é gaúcho, então esse mito “cai por terra” rapidinho. A taxa de suicídio no Rio Grande do Sul é a mais alta do Brasil e há algumas razões para isso. Uma dessas razões que quero enfatizar é a dificuldade cultural de buscar auxílio em saúde mental, visto alguns padrões machistas e patriarcais que ainda veem o sofrimento como “fraqueza”, “coisa de mulher” e “coisa de louco”. Por isso, muitas vezes, o auxílio psicológico não consegue alcançar essas pessoas que estão em sofrimento por conta das barreiras sociais e culturais que também assolam a saúde emocional de muita gente.

Mito 5: Quem fala que quer se matar, fala só pra chamar a atenção. Se quisesse mesmo, já teria feito.

É muito comum diminuir a dor e o sofrimento do outro em “estava querendo chamar a atenção”. Acaba sendo uma análise muito rasa de algo que é muito mais profundo e até obscuro. É mais verdade que quem fala de forma aberta que não quer mais viver, está também pedindo de forma aberta socorro. E isso não pode ser ignorado. Pode ser mesmo que até aquele momento a pessoa não tenha tentado tirar a vida, mas não quer dizer que isso não irá acontecer, bem pelo contrário. Esses podem ser avisos sistemáticos de alguém que não está vendo mais motivos significativos para viver e tirar sua vida seja só questão de tempo.

Prevenir é uma das formas de evitar que o suicídio ocorra. Além disso, prevenir não tem a ver somente com o cuidado prévio da saúde de um modo geral, mas também tem a ver com educar, informar, sobreavisar, advertir e, principalmente, salvar.

Quem quer tirar sua vida, no final das contas quer mesmo acabar com a dor emocional que sente. Isso tem a ver com pensamentos de desamparo e desesperança que trazem, na maioria das vezes, a falsa sensação de que não há por quem e nem pra quê viver.

Se você está passando por isso ou agora percebeu que alguém próximo a você está apresentando sinais, não espere! Busque auxílio o quanto antes. Os profissionais de saúde mental, psicólogos e psiquiatras, são capacitados e treinados a dar todo o suporte técnico e emocional necessários nesses momentos.

Você também pode ligar para o número 188 que é o Centro de Valorização da Vida (CVV) que funciona 24 horas. As informações dos usuários ficam sob total sigilo e esse serviço proporciona acolhimento e direções fundamentais para quem esteja passando por tamanho sofrimento.

O Setembro amarelo é pra lembrar que toda a vida importa, que toda a vida é única e que a vida pode ser muito melhor depois que somos ouvidos, amparados e acolhidos diante dos nossos sofrimentos.


LEIA MAIS COLUNAS:
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Fonte de pesquisa

https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/09/10/na-contramao-da-tendencia-mundial-taxa-de-suicidio-aumenta-7percent-no-brasil-em-seis-anos.ghtml

https://www.far.fiocruz.br/wp-content/uploads/2018/09/Falando-abertamente-sobre-suicidio.pdf

https://www.cvv.org.br/

Luísa Anzolin
Psicóloga clínica com foco na terapia cognitivo comportamental. CRP 07/32043

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