“Reações adversas são processos normais”, explica diretor do Albert Einstein sobre paralisação da vacina de Oxford

A paralisação dos testes da vacina de Oxford contra a Covid-19, desenvolvida pela universidade britânica em parceria com a farmacêutica AstraZeneca, pegou o mundo de surpresa na última terça-feira (08). A decisão aconteceu depois que um dos candidatos apresentou uma “reação adversa séria”, como informou a farmacêutica em nota. Ainda não se sabe se o paciente estaria no grupo que recebeu a vacina ou não.

Para o diretor-superintendente de pesquisa do Hospital Israelita Albert Einstein, Luiz Vicente Rizzo, a notícia não deve ser encarada com alarme. Pelo contrário, a suspensão dos testes da vacina – que agora é investigada pelo Comitê Independente de Monitoramento de Segurança dos Dados (DSMC, sigla em inglês) – reforça a seriedade com que os estudos estão sendo conduzidos: “É um processo normal em todos os estudos científicos sérios e que está sendo seguido corretamente pelos pesquisadores da vacina de Oxford. E é bom que seja assim, pois mostra que a pesquisa está sendo feita a despeito das pressões políticas”, afirma o médico-imunologista, que coordena uma série de pesquisas sobre o tratamento da Covid-19 realizada pela Coalizão Covid Brasil.

Em entrevista à Agência Einstein, Rizzo compara a cobertura dos estudos científicos sobre o novo coronavírus a um “reality show”. O médico acrescenta que, na ânsia por informações sobre avanços clínicos, procedimentos comuns, como paralisações por reações adversas, acabam criando alarme por conta do desconhecimento sobre como são desenvolvidas as pesquisas: “As reações adversas são processos normais que também acontecem com outras vacinas e medicamentos. A aspirina, por exemplo, causa reações em 10% das pessoas, e nem por isso deixamos de prescrevê-la”, explica.

Confira a entrevista com Luiz Vicente Rizzo, diretor-superintendente de pesquisa do Hospital Israelita Albert Einstein.

  1. Há motivos para preocupação com a notícia da suspensão dos estudos da vacina de Oxford?

Não há motivos para preocupação. Esse procedimento faz parte de qualquer estudo clínico sério, que vai ter, entre outras características, um controle independente de segurança e dados. Isso significa que tem um grupo, que não faz parte da equipe de pesquisas, que recebe todos os dados da análise e faz o controle de sua segurança.

Além disso, deve-se considerar duas coisas. Em primeiro lugar, ainda não sabemos se o paciente que teve o problema – que ainda nem sabemos oficialmente qual seria – estaria no grupo que tomou a vacina. Ainda é preciso ressaltar que, até o momento, foram vacinadas milhares de pessoas. E se pegarmos um grupo de milhares de pessoas, aleatoriamente, é normal que coisas aconteçam com alguma delas – um infarto, uma crise diabética –, e que não necessariamente isso seja causado pela medicação, ou que esse tipo de problema possa acontecer com outros.  E para isso existe a pesquisa.

  • A notícia teria causado um alarme cedo demais?

O que acontece hoje é que, por conta de todo o contexto causado pela Covid-19, e a ansiedade das pessoas por respostas, criou-se um verdadeiro reality show em cima dos estudos. Estamos sendo monitorados o tempo todo. Mas as pessoas precisam entender que as pesquisas sempre foram assim: você começa por um caminho, vai analisando como ele se desenvolve, então uma hora você para, vê se há realmente um problema mesmo, ou se trata-se de uma observação frívola… é um processo normal em todos os estudos científicos sérios e que está sendo seguido corretamente pelos pesquisadores da vacina de Oxford. E é bom que seja assim, pois mostra que a pesquisa está sendo feita a despeito das pressões políticas.

  • Caso seja confirmada a reação adversa, o estudo pode retornar às fases anteriores ou mesmo ser cancelado?

A fase de segurança da pesquisa já foi estabelecida e os testes, muito provavelmente, vão continuar em breve. Caso seja mostrado que o paciente com reação pertencia ao grupo que recebeu a vacina, será analisada a frequência dessa reação e se há alguma relação com o agente. As reações adversas são processos normais que também acontecem com outras vacinas e medicamentos. A aspirina, por exemplo, causa reações em 10% das pessoas, e nem por isso deixamos de prescrevê-la.

  • A urgência por resultados tem impactado na condução dos estudos relacionados à Covid-19?

Não, tanto que houve a paralisação. Isso mostra a segurança deste estudo, que está sendo conduzido por cientistas de grande qualidade, e que trabalham de maneira independente a pressões políticas. É claro que tem vacinas que nós não sabemos como estão sendo feitas, mas esta, por exemplo, é uma que está sendo muito bem cuidada.

É importante diferenciar o que é feito com urgência daquilo que é feito de forma açodada. Estamos vivendo uma crise e é necessário um tratamento de urgência: questões regulatórias devem ser resolvidas de forma mais ágil, você deve procurar recrutar pessoas mais rapidamente…, mas não podemos queimar etapas, e a paralisação do estudo de Oxford mostra que o cuidado com os estágios está sendo respeitado.

  • Essa notícia pode aumentar o medo da população, especialmente em um momento em que os brasileiros estão aderindo menos às vacinas? 

É claro que vai aumentar. Mas as pessoas precisam entender o trabalho dos cientistas, informar-se melhor sobre os procedimentos, ouvir os especialistas. As vacinas são uma das coisas mais seguras que há no mundo. A chance de você ter um problema com elas são menores do que a de sofrer um acidente grave de carro, por exemplo. Precisamos lembrar que a única doença da qual a humanidade se livrou até hoje foi a varíola, e graças à vacina! Temos outras doenças, como o Sarampo e a Poliomielite (Paralisia infantil), que também podemos varrer da humanidade se as pessoas se vacinarem. É preciso ter em mente que a vacina salva vidas, e que vem salvando há centenas de anos.


Fonte: Frederico Cursino e Nicola Ferreira, da Agência Einstein


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