A autocrítica te faz crescer ou sofrer?

Cada um  tem seu “crítico interno” que produz em nós formas de pensar, de sentir e de se comportar. Há quem diga que quando esse “inquilino” reside em nossa mente com voz ativa, acabamos sofrendo além do que é preciso, nos punimos de forma excessiva e ficamos presos em situações do passado. Outros, porém, dizem que, quando esse “crítico interno” é pouco atuante, nos tornamos pessoas com baixa autoavaliação, incapazes de refletir e rever comportamentos inadequados.

Os processos de autocrítica se dão de formas distintas em cada indivíduo e, para muitos, pode trazer consequências difíceis. Não é a toa que, atualmente, o autocriticismo se mostra um tema bastante estudado, visto as implicações que apresenta no comportamento humano.

O autor Paul Gilbert que se dedica a estudar esse tema relata que o autocriticismo representa uma relação interna hostil que ativa em nós o sistema de processamento de defesa à ameaças e que reforça em nós pensamentos de inferioridade. Esse processo contrasta com estratégias de autocompaixão e de autotranquilização que são necessárias para  regular a intensidade das nossas emoções de forma saudável.

Em decorrência disso, estudos mostraram que pessoas com sintomas depressivos mostraram índices elevados de autocriticismo e, além disso, apresentaram ideias e intenções suicidas.

Ser autocrítico é diferente de ter um senso crítico. O senso crítico compõe a autocrítica, mas eles não são iguais. Enquanto a primeira é importante para que nossos comportamentos sejam avaliados e reajustados, o autocriticismo se apresenta, em muitas vezes, como uma forma rígida, inflexível e punitiva de definir quem somos e que não necessariamente mudam comportamentos indesejados.

Pense agora em momentos que seu crítico interno foi acionado. O que ele te dizia? Não dizia coisas boas, né? Provavelmente falava coisas, como: “eu nunca faço nada certo mesmo”, “sou um desastre”, “nunca vou progredir”, “todo mundo vai descobrir que sou uma farsa”, “ninguém acredita mais no meu potencial”, “eu não mereço nada de bom que possa acontecer” e a lista geralmente segue grande.

Além do mais, essas frases ditas por ele se tornam, por vezes, uma sentença e uma verdade absoluta sobre quem somos e sobre o que os outros pensam de nós.

Quero te fazer mais umas perguntas sobre o seu crítico interno:

  • Qual é a voz dele?
  • Qual o tom que ele costuma falar?
  • Você consegue imaginar como ele seria?
  • Ele lembra alguém que você conhece?
  • Como você se sente depois que ele fala?
  • O quê você geralmente faz depois de ouví-lo?

Refletir sobre isso pode nos levar a “insights” importantes sobre a forma como aprendemos a nos tratar e em como lidamos com nossos erros, falhas e imperfeições. Além disso, você poderá avaliar se você tem sido o seu pior carrasco e se você tem tido benefícios com essa forma de pensar.

Já ouvi em certo momento que ser autocrítico nos torna pessoas melhores. De fato, pode ser que isso deixe alguns dos nossos comportamentos menos problemáticos. Contudo, precisamos avaliar o nível e a proporção que a autocrítica ganha na nossa vida. Posso afirmar que, na minha prática clínica, acompanhei clientes que sofreram demais por conta do seu autocriticismo. As demandas pelas quais eles vieram para o tratamento psicológico eram bem diversificadas: sintomas de ansiedade, sintomas depressivos, oscilação do humor, dificuldade nas relações e no trabalho etc. Na hora de investigar as causas, acabamos descobrindo, entre outras questões, um crítico interno bem estabelecido, forte, com voz ativa e bastante tirano que reinava sem ser questionado ou desafiado.

Não quero que você pense que esse texto tem o objetivo de te convencer que não precisamos nos autoavaliarmos e termos senso crítico sobre nossa forma de ser e de se comportar. Isso, na realidade, é fundamental para a manutenção da nossa vida e das nossas relações.

A questão é: ser crítico demais com você mesmo, mais te ajuda ou mais te atrapalha? Por isso, quero te apresentar algumas formas importantes de lidar com o seu crítico interno quando ele te pune e te castiga de forma exagerada.

1º: Filtre.

Toda crítica, seja interna ou externa, deve ser filtrada. Você já parou pra pensar que as críticas mais destrutivas do que construtivas, são, em certo grau, incoerente e injustas?

Avalie se a crítica que você faz a si mesmo mais te coloca pra baixo e faz com que você se sinta inferiorizado do que, de fato, te leva a reavaliar algum comportamento, objetivando o teu crescimento pessoal.

Além disso, as críticas destrutivas se tornam incoerentes e injustas, pois excluem vários momentos e comportamentos positivos que você já teve e reforçam pensamentos de desvalor sobre quem você é. Por isso, não caia nessa armadilha do seu inquilino mental importuno. Ele é exagerado, contraditório e ganha forças quando não é questionado.

2º: Questione aquilo que parece óbvio para você.

Pode ser que pra você, devido a sua autocrítica, não “se sentir bom o suficiente” seja normal e óbvio. Afinal, alguém dentro da sua mente sempre lhe afirma isso quando as coisas não saem como o esperado. No entanto, você já se questionou em relação a sensação de não se sentir bom o suficiente?

Pois bem, questione aquilo que é uma sensação pra você. Se pergunte: isso é só uma sensação ou é um fato? Não ser bom o suficiente é uma realidade? As pessoas me falam isso? Meu chefe me diz isso? Meus colegas não avaliam bem meu trabalho? Se isso, de FATO acontece. Há pelo menos três caminhos a serem seguidos: podemos simplesmente rejeitar as críticas, rejeitá-las e aceitá-las ao mesmo tempo ou podemos aceitá-las e usá-las ao nosso favor.

Agora se isso se mostra como uma sensação, sem provas concretas, reais apenas na sua mente, então está na hora de questionar seu crítico interno. O que não é bom o suficiente? Quais as coisas positivas que eu não estou dando o valor necessário? Se eu não tivesse essa sensação, como seria minha vida?

3º: Faça terapia!

Textos, livros, artigos e qualquer outra forma de informação pode ser terapêutico para você, mas não é, nem de perto, um processo de psicoterapia e, em hipótese alguma, substitui um tratamento em saúde mental.

Caso você avalie que lidar com a sua autocrítica ou com críticas de um modo geral te trazem prejuízo e sofrimento, talvez seja o caso de um auxílio mais especializado. Se já é muito difícil de lidar e de estar com pessoas que criticam tudo e a todos, imagina quando esse crítico mora dentro da gente e está conosco 24 horas por dia.

Acredite, assim como somos capazes de alimentar dentro de nós a autocrítica, podemos também desenvolver  formas autocompassivas de nos enxergamos e de lidarmos com situações desagradáveis da nossa vida.


Fonte de pesquisa:

FREEMAN, Arthur. DEWOLF, Rose (2018). As 10 bobagens mais comuns que as pessoas inteligentes cometem e técnicas eficazes para evitá-las. Guarda-chuva, Rio de Janeiro.

Artigo: https://estudogeral.uc.pt/handle/10316/20463


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Luísa Anzolin
Psicóloga clínica com foco na terapia cognitivo comportamental. CRP 07/32043

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