Definição de dor é revisada após mais de quatro décadas

Após mais de 40 anos, a definição sobre a dor mudou. Uma atualização sutil – porém, relevante – publicada pela Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) vem abraçar uma parcela da população que sofre de uma condição ainda difícil de ser compreendida. São os pacientes das chamadas dores nociplásticas, doenças que podem acometer até mais de 2% dos brasileiros, mas que, por não deixarem rastros visíveis, dificultam a sua identificação e tratamento.

“É uma grande conquista. Até então, existia um conceito de que era preciso encontrar uma lesão para justificar a dor. Agora, ficou definido que a dor é algo individual e que deve ser tratada como uma doença em si”, destaca a anestesiologista Fabíola Peixoto, coordenadora da pós-graduação em dor do Ensino Einstein.

De acordo com a nova publicação da IASP – principal referência no mundo em pesquisas e políticas para o tratamento da dor –, a condição passa a ser definida como “uma experiência sensorial e emocional desagradável associada, ou semelhante àquela associada, a um dano real ou potencial ao tecido.”

Foram duas mudanças em relação à designação anterior, de 1979: retirou-se o trecho que dizia que a dor poderia ser “descrita” e foi acrescentado o termo “semelhante” sobre as associações às experiências sensoriais. Isso significa que pessoas com dificuldades de comunicação ou aquelas que sintam dores parecidas com as de uma lesão – mas que não tenham sofrido nenhum trauma – passam a ser reconhecidas como pacientes portadores de doenças crônicas, e, com isso, deverão ser encaminhados para especialistas no tratamento.

“A inclusão da palavra semelhante é a grande chave, pois reconhece uma dor que seja semelhante a um trauma, ainda que não tenha havido trauma nenhum. Essa definição colabora para que a dor seja valorizada. Por muitos anos, ela foi entendida como um sintoma, mas hoje sabemos que dores que duram mais de três meses são uma doença, que devem ser tratadas precocemente”, explica a anestesiologista.

A atualização trouxe ainda seis notas que ajudam a explicar a nova definição (ver abaixo). Esses pontos ressaltam, por exemplo, que a dor é uma experiência pessoal influenciada por fatores biológicos, psicológicos e sociais; que ela não pode se limitar a atividades dos neurônios sensoriais; e que toda pessoa que relata uma experiência deve ser respeitada.

“A dor também é uma experiência que vai sendo aprendida ao longo da vida. Tudo o que você vive, os procedimentos que você passa, isso pode indicar uma chance maior de ter dor. Estudos mostram, por exemplo, que crianças com pais ansiosos teriam uma piora vivência de dor”, acrescenta Fabiola.


Dores invisíveis

Um dos motivos para a revisão da IASP é o fato de que, nas últimas quatro décadas, morbidades que não eram reconhecidas pela comunidade médica passaram a ser mais estudadas. Uma delas é a dor nociplástica, como a fibromialgia, caracterizada pelo estímulo dos receptores da dor sem evidência da causa.

Até 2016, existiam apenas duas modalidades de dor: a nociceptiva, que pode ser resultado de cirurgias ou inflamações; e a neuropática, que acomete até 10% da população e é causada por lesões no sistema nervoso. Só nos últimos quatro anos que a comunidade médica passou a reconhecer a dor nociplástica, considerada como o terceiro mecanismo de dor. Apenas a fibromialgia, por exemplo, afeta 2% da população brasileira, sendo que a incidência em pessoas maiores de 40 anos chega a 8%, como apontam estudos da Universidade Federal de Santa Catarina, da Universidade de São Paulo e da Universidade Federal de São Paulo.

“É um caso em que não existe uma lesão, mas ainda assim não se pode dizer que a dor seja causada por fatores psicológicos. É uma dor física. São disfunções e maus funcionamentos que mantêm o paciente nessa condição”, ressalta a especialista.

Para Fabiola, essa mudança na definição pode significar uma importante economia para os sistemas de saúde: “Pesquisas mostram que pacientes com dores crônicas passam por seis a dez médicos, em média, até chegar a uma clínica especializada em dor.  Porém, se ele for encaminhado logo na primeira consulta, será melhor para ele e para o sistema de saúde”, completa a médica.

O que é a dor?*

Até 1979: “Uma experiência sensitiva e emocional desagradável associada a uma lesão tecidual real ou potencial ou descrita nos termos de tal lesão”.

Como ficou: “Uma experiência sensorial e emocional desagradável associada, ou semelhante àquela associada, a um dano real ou potencial ao tecido.”

*definição da Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP)

Notas sobre a revisão da definição de dor pela IASP:

  1. A dor sempre é uma experiência pessoal influenciada em vários graus por fatores biológicos psicológicos e sociais.
  2. Dor e nocicepção (componente fisiológico da dor) são diferentes fenômenos. Isso é, a dor não pode se limitar apenas à atividade dos neurônios sensoriais.
  3. O conceito de dor é aprendido ao longo da vida.
  4. O indivíduo que relata uma experiência de dor deve ser respeitado.
  5. Embora a dor, normalmente, sirva como adaptativa (fisiológica), ela pode apresentar efeitos adversos na função e no bem-estar social e psicológico.
  6. A descrição verbal é apenas um de vários comportamentos para expressar a dor. A incapacidade de se comunicar não nega a possibilidade de um animal humano ou não humano sentir dor.

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Fonte: Agência Einstein.

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