O impacto dos antibióticos: o seu microbioma é capaz de se recuperar?

O microbioma intestinal humano abrange trilhões de microrganismos que vivem em nossos intestinos, essencialmente bactérias [1]. O microbioma é uma parte essencial da fisiologia humana e oferece suporte a muitas funções biológicas vitais. As bactérias intestinais, por exemplo, produzem ácidos graxos de cadeia curta como o butirato, que cada vez são mais vistos como benéficos à nossa saúde [2].

Apesar das bactérias serem frequentemente associadas a algo ruim, nem todas causam doenças. Na verdade, em sua maioria, elas parecem ser inofensivas ou boas. No nosso corpo, elas podem realizar várias funções que nós mesmos não podemos realizar. 

Além da importância da microbiota para a nossa saúde, é importante saber que a composição do microbioma intestinal é única para cada um de nós. Também, que a quantidade e a diversidade das bactérias do intestino parecem ser relativamente estáveis ao longo de meses e anos, apesar das flutuações do dia-a-dia [3,4].

Apesar de existir uma “variabilidade natural”, o microbioma intestinal pode ser fortemente influenciado por estilos de vida e fatores ambientais que incluem alterações na dieta, frequência de atividades físicas, vida em centros urbanos, condições de saneamento e higiene, exposição a xenobióticos (especialmente antibióticos [5][6]) e quadros de infecção ou inflamação [7,8]


Os possíveis elos entre o microbioma intestinal e a gravidade da COVID-19
Porque a resistência antimicrobiana é um sério problema de saúde mundial?


Em resposta a essas diferentes condições ambientais, o microbioma pode fazer mudanças para se adaptar. As adaptações do microbioma podem ter consequências benéficas ou neutras, mas também podem se tornar um problema quando a comunidade microbiana não retorna ao estado anterior após a normalização das condições ambientais, persistindo cronicamente em um estado “não adaptativo”, que tem consequências prejudiciais para o hospedeiro humano [9,10]. 

Em um artigo recente da revista Nature Ecology & Evolution [11], Kern Rei Chng e outros pesquisadores observaram que, após o tratamento com antibióticos, as respostas do microbioma intestinal humano podem diferir entre as pessoas.

Os cientistas fizeram a análise do microbioma intestinal de diferentes pessoas e observaram que é possível encontrar dois grupos: indivíduos ‘recuperadores’ ou ‘não recuperadores’, dependendo da capacidade do microbioma se recuperar rapidamente após o tratamento com antibióticos. 

Entre aqueles indivíduos capazes de recuperar o seu microbioma intestinal após o tratamento com antibióticos, vinte e uma espécies bacterianas foram frequentemente encontradas e consistentemente associadas à capacidade de recuperação. Muitas dessas espécies são especializadas na degradação de açúcares complexos e de difícil metabolização para nós ou até mesmo outras bactérias intestinais.

As 21 espécies-chave de bactérias estariam criando condições estáveis para que outras espécies do microbioma pudessem florescer. Assim, essas bactérias permitem a rápida recuperação da quantidade e da diversidade de todas as outras bactérias após os antibióticos. 

Os cientistas também obtiveram um modelo matemático capaz de revelar a capacidade de recuperação do microbioma de uma pessoa, antes mesmo dela iniciar o tratamento com antibióticos. Ficou curioso para saber em qual grupo você se encaixa?

Antes de tudo, nunca se esqueça: o uso de antibióticos é importante para o tratamento de doenças e auxílio dos cuidados com a saúde, mas apenas quando devidamente receitados por médicos! Além de alterar a resistência das bactérias que causam doenças, o uso indiscriminado desses medicamentos também pode afetar outras bactérias que ajudam o nosso organismo. 

Lembrando, você pode acessar o principal artigo que citamos aqui em: https://doi.org/10.1038/s41559-020-1236-0 

LEIA MAIS COLUNAS:
Qual a idade das suas artérias? Pergunte ao seu microbioma intestinal e a sua dieta!
Sabonete ou álcool? Como se proteger e preservar a saúde da sua pele e do seu microbioma cutâneo.
Os pequenos gigantes, seus prós e antis


Referências

1. Qin J, Li R, Raes J, Arumugam M, Burgdorf KS, Manichanh C, et al. A human gut microbial gene catalogue established by metagenomic sequencing. Nature. 2010;464: 59–65.

2. Koh A, De Vadder F, Kovatcheva-Datchary P, Bäckhed F. From Dietary Fiber to Host Physiology: Short-Chain Fatty Acids as Key Bacterial Metabolites. Cell. 2016;165: 1332–1345.

3. Gibbons SM, Kearney SM, Smillie CS, Alm EJ. Two dynamic regimes in the human gut microbiome. PLoS Comput Biol. 2017;13: e1005364.

4. Thaiss CA, Zeevi D, Levy M, Zilberman-Schapira G, Suez J, Tengeler AC, et al. Transkingdom control of microbiota diurnal oscillations promotes metabolic homeostasis. Cell. 2014;159: 514–529.

5. Dethlefsen L, Relman DA. Incomplete recovery and individualized responses of the human distal gut microbiota to repeated antibiotic perturbation. Proc Natl Acad Sci U S A. 2011;108 Suppl 1: 4554–4561.

6. Dethlefsen L, Huse S, Sogin ML, Relman DA. The pervasive effects of an antibiotic on the human gut microbiota, as revealed by deep 16S rRNA sequencing. PLoS Biol. 2008;6: e280.

7. Levy M, Kolodziejczyk AA, Thaiss CA, Elinav E. Dysbiosis and the immune system. Nature Reviews Immunology. 2017. pp. 219–232. doi:10.1038/nri.2017.7

8. Vangay P, Ward T, Gerber JS, Knights D. Antibiotics, pediatric dysbiosis, and disease. Cell Host Microbe. 2015;17: 553–564.

9. Thaiss CA, Itav S, Rothschild D, Meijer MT, Levy M, Moresi C, et al. Persistent microbiome alterations modulate the rate of post-dieting weight regain. Nature. 2016;540: 544–551.

10. Fonseca DM da, Hand TW, Han S-J, Gerner MY, Glatman Zaretsky A, Byrd AL, et al. Microbiota-Dependent Sequelae of Acute Infection Compromise Tissue-Specific Immunity. Cell. 2015;163: 354–366.

11. Chng KR, Ghosh TS, Tan YH, Nandi T, Lee IR, Ng AHQ, et al. Metagenome-wide association analysis identifies microbial determinants of post-antibiotic ecological recovery in the gut. Nat Ecol Evol. 2020;4: 1256–1267.

Faça um comentário

Deixe seu comentário

Artigos Relacionados

Redes Sociais

3,814FãsCurtir
603SeguidoresSeguir
56SeguidoresSeguir

Atualizações