Preocupações com a pandemia podem levar a sintomas de estresse pós-traumático

O isolamento social, as milhares de mortes por dia e o bombardeamento de informações por conta da pandemia do novo coronavírus trouxeram diversas consequências para a saúde mental das pessoas, como depressão e ansiedade. Agora, um novo estudo da Universidade Flinders, publicado na revista científica PLOS ONE, mostra que as angústias causadas pelo contexto em que vivemos podem levar a sintomas de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).

As pesquisadoras entrevistaram, de forma online, 1040 participantes de cinco países, e descobriram que 13,2% deles apresentavam sintomas relacionados ao estresse pós-traumático, em níveis suficientes para qualificar um diagnóstico clínico. “Nós estávamos interessadas em capturar uma fotografia da resposta psicológica (ao invés de imunológica) que as pessoas tinham ao vírus”, afirmam as autoras do estudo.

O TEPT é um distúrbio que se desenvolve em indivíduos que foram expostos a episódios violentos e de risco à vida, como acidentes, abuso sexual e guerras. Ele desencadeia lembranças frequentes do evento, por meio de pesadelos e flashbacks. A pessoa com estresse pós-traumático também demonstra ansiedade intensa e reações exageradas a estímulos.

À primeira vista, o transtorno não inclui uma pandemia, uma vez que ele é focado em experiências passadas que são, na maioria dos casos, vivenciadas diretamente pelo indivíduo. No entanto, os novos achados indicam que as preocupações com o futuro e a exposição indireta a situações traumáticas podem levar aos sintomas de TEPT.

Na pesquisa, os participantes relataram os acontecimentos relacionados à pandemia ao qual foram expostos diretamente e os eventos que imaginavam que poderiam acontecer no futuro. Eles também falaram sobre a relação com a mídia durante esse período e responderam um questionário de diagnóstico para estresse pós-traumático.

Além de indícios mais gerais e não necessariamente relacionados ao TEPT, como mau humor e irritação elevada, os resultados mostraram que as pessoas criavam visões de acontecimentos futuros específicos, imaginando possíveis traumas que poderiam ocorrer. O estudo também estabeleceu uma diferenciação entre o estresse pós-traumático e o transtorno de ansiedade generalizada, afirmando que o primeiro gira em torno de episódios pontuais, enquanto o segundo envolve sentimentos relacionados a uma maior variedade de circunstâncias e situações.

As pesquisadoras concluíram que os sintomas de estresse traumático eram relacionados a eventos que ainda não se concretizaram, como a preocupação de que o indivíduo ou algum familiar contraísse o vírus. O contato indireto com a Covid-19, como a cobertura de notícias e o lockdown — contextos que não colocam a vida em risco — também era um fator de grande impacto.

“Os participantes descreveram essas reações quer eles tenham sido expostos direta ou indiretamente ao coronavírus, desafiando a ideia de que as pessoas precisam vivenciar um evento de forma direta e presencial para desenvolver sintomas de TEPT”, afirmam as autoras. Do total de participantes, apenas 2% havia testado positivo para a Covid-19 e 5% tinham amigos ou familiares próximos que foram infectados pela doença.

“Nossas descobertas enfatizam a necessidade de se atentar para o estresse psicológico — inclusive os impactos emocionais de determinadas experiências — associado à Covid-19”, diz Victoria Bridgland, uma das pesquisadoras.


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Foto: RODNAE Productions

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