Covid-19 pode causar inflamação em canal localizado atrás dos testículos

Estudo desenvolvido na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) mostrou que a infecção por Covid-19 pode afetar o sistema reprodutor masculino. De acordo com os resultados, de 26 pacientes com casos leves e moderados da doença, que não se queixavam de dores escrotais, 42,3% apresentaram epididimite — uma inflamação no epidídimo, canal localizado atrás dos testículos. O artigo foi publicado em 9 de fevereiro na revista científica Andrologia

O epidídimo é um órgão localizado na área posterior do testículo. Sua principal função é o armazenamento e maturação dos espermatozoides.

Os pacientes que participaram da pesquisa tinham entre 18 e 55 anos, faixa etária sexualmente ativa e com propósito de fertilidade. O urologista Thiago Teixeira conta que o critério de exclusão entre os selecionados foi muito rígido, para garantir que outros problemas não estivessem causando acometimento testicular. “Nós verificamos com urologista por meio de exame físico e depois ultrassom. Este último é um ótimo método para avaliar o aspecto do testículo, sendo a melhor forma de verificar se há orquite e epididimite.”, relatou no site da USP.

Dos 26 pacientes, nenhum deles apresentou dores escrotais, entretanto 11 dos pacientes tiveram a infecção conhecida como epididimite (42.3%). Segundo o urologista, o trabalho chama a atenção para os exames físicos e de ultrassonografia em pacientes de quadro moderado com o intuito de identificar a epididimite. “Mesmo na ausência de dores no testículo, eles podem ter essa inflamação que, no futuro, poderá causar algum problema.”

Com o avanço da pandemia do novo coronavírus, os pesquisadores iniciaram pesquisas sobre possíveis sequelas relacionadas à saúde reprodutiva masculina. Isso porque na primeira epidemia de SARS que aconteceu na Ásia, em 2002, estudos com autópsias mostraram que pacientes mais graves tinham orquite, uma inflamação dos testículos. “O vírus da SARS estava relacionado a esse acometimento testicular porque ele se ligava a uma proteína chamada ACE2 e a outra chamada TMPRSS2 para entrar na célula”, explica Teixeira.

De acordo com a pesquisa, ao descobrir que o SARS-CoV-2 também utiliza o mesmo mecanismo do vírus da SARS para invadir as células e que os testículos são ricos em ACE2, os cientistas perceberam que o órgão é um possível alvo para infecção. Além disso, também notaram que, durante a pandemia, pacientes apresentavam alterações no sêmen e nos parâmetros seminais. 

“A ideia então foi estudar os pacientes que estavam na enfermaria e ver o estado dos testículos deles através de ultrassom doppler”, explica um dos autores do estudo e coordenador do Grupo de Estudo em Saúde Masculina do Instituto de Estudos Avançados (IEA), Jorge Hallak.

O foco da pesquisa foi descobrir se em casos leves e moderados havia algum acometimento do testículo que pudesse passar despercebido e, no futuro, deixar sequelas. “Se os espermatozoides não passarem pelo epidídimo, há diminuição da fertilidade”, detalha. 

Jorge Hallak também atenta para o estudo dos problemas que o novo coronavírus pode causar à saúde reprodutiva masculina. “É uma doença muito mais séria do que imaginávamos em termos de saúde do homem, em particular. O segundo órgão, depois do pulmão, com maior quantidade de receptores ACE2 é o testículo.”

De acordo com matéria divulgada no Jornal da USP, o próximo passo dos pesquisadores é desenvolver estudos para entender melhor como o novo coronavírus e a infecção por Covid-19 pode afetar os hormônios masculinos, principalmente a testosterona.


Foto: Reprodução/Andrologia


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