Estudos analisaram os efeitos genéticos provocados pela radiação do acidente de Chernobyl


Dois novos estudos sobre as mudanças genéticas de indivíduos expostos à radiação de Chernobyl, maior desastre nuclear da história, foram divulgados. O primeiro estudo buscou identificar evidências de novas mudanças genéticas passadas de pais expostos à radiação para os filhos. No segundo, foram analisadas mudanças genéticas em tumores de pessoas que desenvolveram câncer de tireoide após a exposição à radiação.

O estudo foi realizado por equipes internacionais de investigadores liderados por pesquisadores do National Cancer Institute (NCI). A pesquisa foi publicada na revista científica Science, em 22 de abril.

Na madrugada do dia 26 de abril de 1986, na então União Soviética (atualmente Ucrânia), aconteceu o maior acidente nuclear da história. O acidente ocorreu na Usina Nuclear de V.I. Lenin, próxima à cidade de Chernobyl, após a realização de um teste mal sucedido que resultou na explosão do reator 4. O acidente nuclear matou e expôs milhares de pessoas a contaminantes radioativos. 

De acordo com a pesquisa, estudos proporcionaram muito do conhecimento atual sobre cânceres causados por conta de exposições à radiação de acidentes em usinas nucleares. A nova pesquisa baseia-se na mesma base, usando o sequenciamento de DNA de última geração e ferramentas de caracterização genômica para analisar bioespécimes de pessoas na Ucrânia que foram afetadas pelo desastre.

“Nos últimos anos, os avanços na tecnologia de sequenciamento de DNA nos permitiram começar a abordar algumas das questões importantes, em parte por meio de análises genômicas abrangentes realizadas em estudos epidemiológicos bem planejados”, explicou Stephen J. Chanock, um dos principais autores do estudo e diretor da Divisão de Epidemiologia e Genética do Câncer (DCEG) do NCI.

Possível contaminação de pais para filhos

O primeiro estudo analisou genomas completos de 130 pessoas, nascidas entre 1987 e 2002, e seus 105 pares de mãe e pai, para entender se a exposição à radiação pode resultar em mudanças genéticas passadas de pais para filhos. 

Dos pais analisados, um ou ambos eram trabalhadores que ajudaram a limpar o acidente ou foram evacuados por morarem próximos do local do acidente. “Cada pai foi avaliado quanto à exposição prolongada à radiação ionizante, que pode ter ocorrido por meio do consumo de leite contaminado (isto é, leite de vacas que pastavam em pastagens contaminadas por precipitação radioativa). As mães e pais experimentaram uma série de doses de radiação”, explicam os pesquisadores.

Análises de genomas de crianças adultas também foram realizadas pelos pesquisadores, para procurar algum aumento em um tipo particular de mudança genética hereditária. Essas mudanças são conhecidas como “mutações de novo”, que são alterações genéticas que surgem de forma aleatória nos gametas de uma pessoa (espermatozoides e óvulos) e podem ser passadas para os filhos, no entanto, não são observadas nos pais.

Em relação a gama de exposições à radiação experimentada pelos pais no estudo, não foram identificadas evidências de novas mudanças genéticas passadas dos pais expostos para os filhos nascidos entre 46 semanas e 15 anos após o acidente. “O número de mutações de novo observadas nessas crianças foi muito semelhante ao da população em geral com características comparáveis”, apontam os pesquisadores. Desse modo, os resultados da pesquisa indicam que a exposição à radiação tem um impacto mínimo na saúde da próxima geração.

“Vemos esses resultados como muito tranquilizadores para as pessoas que viviam em Fukushima na época do acidente em 2011”, disse Chanock. “As doses de radiação no Japão são conhecidas por terem sido menores do que as registradas em Chernobyl”, completa.

Câncer de tireoide e o acidente nuclear de Chernobyl

Para o segundo estudo, que analisou mudanças genéticas em tumores de pessoas que desenvolveram câncer de tireoide após a exposição à radiação – quando crianças ou fetos -, os pesquisadores realizaram o sequenciamento de próxima geração a fim de traçar o perfil das mudanças genéticas nesses cânceres. 

Os pesquisadores realizaram o sequenciamento para descrever o perfil das mudanças genéticas nos cânceres de tireoide. Para isso, foram analisadas 359 pessoas expostas à radiação ionizante de iodo radioativo (I-131) na infância ou ainda na barriga das mães e em 81 pessoas não expostas nascidas mais de nove meses após o acidente. 

Segundo os pesquisadores, o aumento do risco de câncer de tireoide está associado à exposição à radiação do acidente nuclear, um dos motivos que levou a pesquisa a comparar casos relacionados a esse tipo de câncer. “O novo estudo destaca a importância de um tipo específico de dano ao DNA que envolve quebras em ambas as fitas de DNA nos tumores da tireoide. A associação entre quebras de fita dupla de DNA e exposição à radiação foi mais forte para crianças expostas em idades mais jovens”, informam. No entanto, as pessoas não expostas ou expostas a baixos níveis de radiação apresentaram outras causas para o desenvolvimento do tumor na mesma região.

“Um aspecto emocionante desta pesquisa foi a oportunidade de vincular as características genômicas do tumor com informações sobre a dose de radiação – o fator de risco que potencialmente causou o câncer”, disse Lindsay M. Morton, vice-chefe da Divisão de Epidemiologia de Radiação no DCEG, que liderou o estudo.


Fotos: Pixabay


Bruna Faraco
Jornalista formada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), radialista e fotógrafa.

Faça um comentário

Deixe seu comentário

Artigos Relacionados

Redes Sociais

3,814FãsCurtir
603SeguidoresSeguir
56SeguidoresSeguir

Atualizações