O seu DNA pode dizer se você está entre os mais de 60% dos brasileiros intolerantes à lactose


A intolerância ao leite é causada por uma incapacidade de digerir a lactose, um tipo de açúcar que é naturalmente encontrado no leite e seus derivados. A lactose é quebrada por uma enzima chamada lactase, a qual é codificada por um gene chamado LCT,  localizado no cromossomo humano número 2[1]. A intolerância acontece quando o intestino delgado já não é capaz de produzir a lactase em quantidades suficientes. Existem três tipos principais de intolerância, cada um com diferentes causas:

Intolerância primária: resultado do envelhecimento. É o tipo mais comum de intolerância ao leite. Como acontece com todos os mamíferos, a produção de lactase acontece em humanos porque os bebês precisam da enzima para digerir o leite materno. Entretanto, após a retirada do leite materno, a quantidade dessa enzima diminui em cerca de dois terços da população[2]. Como consequência, a maioria dos humanos é incapaz de digerir a lactose durante a idade adulta[1]

Intolerância secundária: resultado de doenças ou distúrbios do microbioma. Infecções, doenças intestinais (por exemplo, doença celíaca, retocolite ulcerativa e doença de Crohn), cirurgias e lesões ou crescimento excessivo de bactérias no intestino delgado, podem levar à diminuição da presença da lactase e, consequentemente, à uma redução da capacidade de absorção da lactose[37]

Intolerância congênita ou de desenvolvimento. É uma doença rara que afeta bebês desde o nascimento, com intolerância ao leite materno e diarreia após sua ingestão. Este tipo de intolerância é causado quando o gene da lactase é defeituoso, resultando na ausência completa da enzima. Se a doença não for identificada e tratada precocemente, o recém nascido pode ir a óbito[8]

Base genética da intolerância primária à lactose

Este é o tipo mais comum de intolerância à lactose no mundo (e será o foco desta coluna daqui em diante), compreendendo uma variedade de sintomas, assim como dor abdominal, flatulência, distensão abdominal, borborigmo (barulhos na barriga) e diarreia osmótica causada pela quebra de lactose não digerida pelo microbioma intestinal[9]

A condição de diminuição da atividade da lactase com o passar dos anos é conhecida como “lactase não persistente” (LNP), enquanto que a manutenção de quantidade suficiente da enzima na vida adulta é uma condição chamada “lactase persistente” (LP)[1011]

Em populações europeias, africanas e árabes que realizavam pecuária leiteira intensiva, algumas mutações protetoras foram desenvolvidas entre 5 e 10 mil anos atrás, garantindo a persistência da lactase por toda a vida para os portadores da mutação[12]. Por outro lado, nas Américas, Oceania e Leste e Sudeste Asiático, onde a domesticação de animais não era realizada de forma intensiva, a não persistência da lactase se tornou prevalente nas populações[1, 13].

Evidências científicas atuais sustentam uma base genética com padrão de herança dominante[13] a tolerância à lactose[14], isto é, a tolerância ocorre na presença de pelo menos uma entre seis mutações no gene MCM6, com função regulatória e próximo ao gene que codifica a lactase[14]. Tais mutações são chamadas de polimorfismos de nucleotídeo único ou SNP (do inglês, Single Nucleotide Polymorphism), significando, no caso da tolerância à lactose, que a alteração de um único nucleotídeo do DNA é suficiente para ocasionar uma condição de boa tolerância ao leite na vida adulta. 

No exemplo ilustrado na imagem, a alteração que leva à capacidade de produzir lactase na idade adulta é representada pelo “alelo C” em um dos cromossomos, enquanto que o estado ancestral (“original”) é representado pelo “alelo G”. Os seres humanos herdam dos pais uma cópia de cada cromossomo, ou seja, existem 4 possibilidades diferentes de combinação entre os alelos. A presença do “alelo C” é considerada dominante, o que significa que apenas uma cópia deste alelo já é suficiente para sustentar a produção de lactase na idade adulta. Pessoas que não herdaram nenhuma cópia do “alelo C”, de nenhum dos pais, terão algum grau de intolerância à lactose.

Das seis mutações ou variantes identificadas em MCM6, algumas são mais frequentes nas populações europeias (variações C/T-13910 e G/A-22018)[15–17] e outras em populações de origem africana (T/G-14009, G/C-14010, T/G-13915 e C/G-13907)[19,20].

Intolerância à lactose no Brasil

Conforme comentado acima, uma adaptação evolutiva permitiu que  certas populações fossem capazes de digerir a lactose na idade adulta. No Brasil, devido à alta miscigenação entre populações de diversos países, a prevalência da persistência da lactase difere de acordo com diferentes regiões e etnias. Considerando o Brasil como um todo, existe uma prevalência de intolerância à lactose maior que 63%, especialmente entre  os afrodescendentes e os descendentes de japoneses[18]

Diagnóstico da intolerância à lactose

Na presença de sintomas indesejados, um teste de intolerância à lactose é necessário para que ações assertivas possam ser tomadas em relação à alimentação, assim como a redução ou interrupção do consumo de leite e derivados. Também, algumas soluções biotecnológicas podem ser exploradas, assim como o consumo de produtos sem lactose ou a utilização de comprimidos de lactase antes do consumo de laticínios.

É possível diagnosticar a intolerância à lactose avaliando a atividade da lactase em amostras de biópsia da mucosa do intestino delgado. No entanto, esse exame é invasivo, apresenta um alto custo e pode levar a resultados suscetíveis a erro devido à expressão irregular da enzima. Outra questão é a influência do microbioma intestinal: ao comparar duas pessoas com atividades similares da lactase, os resultados podem diferir completamente  de acordo com as características da composição da microbiota intestinal de cada um[19].

O teste respiratório do hidrogênio (H2) expirado é um outro método de diagnóstico da intolerância à lactose, o qual não é invasivo[2023]. Quando um indivíduo incapaz de digerir a lactose consome alimentos à base de leite, a lactose é metabolizada pelas bactérias do microbioma intestinal. O H2 produzido pela quebra da lactose por essas bactérias entra no pulmão, é exalado e medido na respiração[24]. Um aumento do H2 (maior ou igual a 20 partes por milhão, ppm) é geralmente diagnosticado com a presença de intolerância à lactose[25]. A sensibilidade e especificidade deste teste são consideradas relativamente altas, dependendo da dose de lactose ingerida[25,26]. Além disso, um diagnóstico correto com o uso desse exame pode ser afetado por fatores individuais, assim como a composição da microbiota intestinal, pH do intestino, uso de antibióticos, doenças pulmonares, preparação inadequada para o exame e esvaziamento gástrico anormal[19,27,28].

Diagnóstico molecular

O teste genético molecular permite a verificação ou exclusão da intolerância à lactose primária com alta confiabilidade, uma vez que esse teste sofre pouca influência de fatores individuais. O teste genético é, além disso, um exame não invasivo e mais confortável, por não acarretar em riscos de desenvolvimento de sintomas de intolerância à lactose em indivíduos não persistentes[29].  Este teste é capaz de detectar a presença das variantes genéticas em MCM6, as quais indicam que há produção de lactase no DNA do indivíduo.

É importante ressaltar que, quanto mais variantes de MCM6 forem incluídas na análise, melhor a capacidade de detecção do teste, especialmente considerando populações heterogêneas como a do Brasil. Para a realização deste teste, é necessária a obtenção de uma amostra de DNA de uma pequena quantidade de sangue, de um esfregaço da bochecha (com um swab) ou até mesmo da saliva, seguido da  utilização de uma série de técnicas de biologia molecular. Se a variante genética estiver ausente no DNA, o indivíduo pode ter dificuldades para metabolizar o leite e seus derivados e apresentar sintomas decorrentes disso.


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Referências

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Foto: Freepik.com

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