Vacina para todos: milhares vão às ruas contra Bolsonaro e em luta pela vida

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29 de maio, o dia em que a oposição ao governo de Jair Bolsonaro reuniu multidões e clamou com indignação sobre a atual situação da pandemia de Covid-19 no país. Foram gritos de repulsa, luta, dor e perda. Milhares de brasileiros foram às ruas para protestar contra o governo de Jair Bolsonaro e batalhar por vacinas. 

Desde o início da pandemia, para cumprir com as medidas de distanciamento social e contenção do novo coronavírus, foi a primeira vez que coletivos e movimentos sociais, trabalhadores, estudantes e ativistas de oposição ao governo realizaram mobilizações nos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal, além do exterior. Ao todo, foram 213 cidades brasileiras e 14 no mundo.

Com o atual cenário, as recomendações de segurança de utilização de máscaras, sobretudo as do tipo PFF2, que possuem alta eficácia na proteção, e o uso de álcool em gel foram adotadas pelos manifestantes. Além do mais, algumas pessoas estavam distribuindo máscaras PFF2 e álcool aos que precisavam. No entanto, apesar de todos os cuidados e organização entre os manifestantes, foi inevitável não ter alguns pontos de aglomerações.

Estive presente no ato que ocorreu na minha cidade, Porto Alegre, para realizar uma cobertura fotográfica. Quando cheguei, por volta das 15 horas, em frente ao Paço Municipal, me deparei com uma multidão proferindo gritos de ordem, como “Fora Bolsonaro” e “Vacina no braço e comida no prato”.

A multidão percorreu um trajeto pelo Centro Histórico da Capital até finalizar o ato no Largo Zumbi dos Palmares, no bairro Cidade Baixa. Os manifestantes erguiam cartazes e faixas com frases pedindo por vacina, impeachment, educação, comida e emprego para os milhares de brasileiros acometidos pelo atual momento que o país enfrenta de crises sanitária, econômica e social. 

Entre as frases dos inúmeros cartazes e faixas que vi erguidas por eles, estavam: “Vacina já para todos e todas”, “Em defesa da educação e da vida”, “Trabalhadores do SUS em defesa da vida” e “Comida, emprego, vacina e fora Bolsonaro”. Durante o percurso, observei inúmeros moradores surgindo em suas janelas apoiando os manifestantes, também erguendo faixas manifestando críticas ao governo. 

O protesto, que ocorreu de forma pacífica na Capital, foi acompanhado pela Brigada Militar e a Guarda Municipal.

Do luto à luta

Em um momento da manifestação, um cartaz, que estava escrito “Nosso pai podia estar vivo!”, me chamou a atenção. Naquele instante, senti ainda mais o peso dos mais de 460 mil brasileiros mortos pela Covid-19 e suas famílias atingidas por parte da falta de gestão do Governo Federal. O cartaz era erguido pela relações-públicas Bruna Bottin Pereira, que recentemente perdeu o pai, Mauro Oliveira Pereira, de 66 anos, para a doença. 

Em 2019, Bruna se mudou para a cidade do Porto, em Portugal, e contou que jamais poderia imaginar que o último abraço que deu em seu pai foi no aeroporto, antes de partir. “Nem no meu maior pesadelo eu imaginaria que o abraço apertado que meu pai me deu no aeroporto dois anos atrás seria, de fato, a nossa despedida. Meu pai foi um homem muito alegre, bem disposto e trabalhador. Gostava de música e de um bom churrasco”. 

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Bruna Bottin Pereira na manifestação realizada em Porto Alegre. Foto: Bruna Faraco

“Se o governo de Bolsonaro tivesse levado a sério a pandemia, sabemos que o cenário seria diferente. E nem digo isso só pelas propostas de vacinas que foram ignoradas, mas também por toda a postura de um homem que deveria ser o líder do nosso país. Meu pai faleceu por consequência desse plano genocida”, enfatiza.

Para Bruna, as primeiras semanas de luto foram longe da família e dos amigos.  Em busca de acolhimento das pessoas que a ama, ela retornou à capital gaúcha e marcou presença na manifestação para expressar seu sentimento de revolta em relação à negligência do governo sobre a pandemia. Durante o ato, ao se deparar com um cartaz escrito ‘A luta mudará o luto’, naquele momento, ela percebeu que a frase fez todo o sentido. 

“Toda a tristeza que estamos passando não é só na nossa família. Tenho outros amigos que também perderam familiares e pessoas próximas para uma doença que já existe vacina e que poderia ter sido controlada de outras maneiras. É revoltante. Senti que precisava ir para a luta vestindo o meu luto, e foi por isso que fiz o cartaz ‘Nosso pai podia estar vivo!’”, diz.

Ela conta que recebeu apoio e força de muitas pessoas, inclusive de quem já perdeu um ente querido pela Covid-19, durante o protesto. “O que me deixou esperançosa, foi ver a organização da manifestação e, principalmente, a consciência do povo pelo coletivo. Vi pessoas distribuindo máscaras PFF2 e álcool em gel, todo mundo buscando proteger a si e ao próximo para poder protestar em segurança”, conclui.

Mais de 461 mil vítimas no país e ausência na compra de vacinas

No sábado (29), o Brasil registrava, no total, 16,4 milhões de casos confirmados Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. Além disso, havia alcançado a marca de 461 mil vítimas pela doença. No domingo (30), foram contabilizadas quase 462 mil mortes pela doença, segundo o Ministério da Saúde. Em 24 horas, 874 pessoas perderam a vida em decorrência da Covid-19. 

É importante lembrar que, nos finais de semana, os registros de contaminações e mortes tendem a despencar. Isso acaba prejudicando especialistas e profissionais de realizarem análises das curvas de contágio do vírus. O motivo se dá pelo regime de plantão nos centros de saúde e laboratórios, o que atrasa o repasse dos dados.

Com a CPI da Covid — que investiga as ações e omissões do presidente Jair Bolsonaro na pandemia e repasses federais a estados e municípios — informações importantes sobre a compra de vacinas foram divulgadas. 

De acordo com documentos obtidos pelo jornal Folha de São Paulo, ao menos 10 e-mails foram enviados pela farmacêutica Pfizer ao Ministério da Saúde brasileiro, a fim de negociar a compra dos imunizantes. Os registros mostram a insistência da Pfizer com propostas de vacinas contra a Covid-19 e a ausência de respostas por parte do Governo Federal.

Segundo os documentos da CPI, a primeira oferta da empresa foi formalizada ao Brasil no dia 14 de agosto de 2020, com opções de 30 milhões e 70 milhões de doses, e tinha validade até o dia 29 daquele mês.

A oferta da Pfizer previa início de imunização em dezembro do ano passado, com 1,5 milhão de doses e mais 3 milhões no primeiro trimestre de 2021. No entanto, o Ministério da Saúde do Brasil só firmou acordo em março de 2021, quando realizou a compra de 100 milhões de doses — das quais 14 milhões devem ser entregues até junho, e o restante até setembro deste ano.

O Brasil está em terceiro no ranking mundial de número de casos — ficando atrás somente dos Estados Unidos e da Índia — e em segundo lugar no ranking de mortes — atrás apenas dos EUA.


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