A ligação entre o microbioma, a dieta e o câncer de mama

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Tiny doctors checking and treating large intestine isolated flat vector illustration. Cartoon physicians studying colon inflammation. Medicine and digestive system health concept

O câncer de mama é o câncer mais prevalente em mulheres no mundo. No Brasil, para o ano de 2021, foram estimados 66.280 novos casos, o que representa uma taxa de incidência de 43,74 casos por 100.000 mulheres1.

Estudos têm demonstrado uma forte ligação entre a obesidade e um maior risco de desenvolver câncer de mama em mulheres na pós-menopausa2. Além disso, a eficácia dos tratamentos contra o câncer de mama é significativamente menor em mulheres obesas3.

Existe um papel crítico do microbioma intestinal na obesidade em humanos e outros animais. O ganho de peso estaria associado com a composição da dieta e a disbiose:  dietas ricas em lipídios e carboidratos tenderiam a reduzir a diversidade da microbiota intestinal4.

Estudos mostraram que indivíduos predispostos à obesidade têm uma mudança de proporção entre os principais grupos de bactérias encontrados no microbioma: Bacteroidota e Firmicutes. Uma teoria é que os membros do filo Firmicutes promovam uma absorção mais eficiente de calorias dos alimentos do que aqueles do filo Bacteroidota 5,6. A disbiose também poderia aumentar a inflamação intestinal e alterar a comunicação cérebro-intestino7.

A alta ingestão de produtos de origem animal, alimentos processados, álcool e açúcar sustentam um microbioma intestinal que estimula a inflamação e problemas de saúde. 

Um artigo intitulado Diet alters entero-mammary signaling to regulate the breast microbiome and tumorigenesis (A dieta altera a sinalização entero-mamária para regular o microbioma da mama e a tumorigênese), publicado este mês na revista Cancer Research, feito por cientistas da Wake Forest School of Medicine, demonstra que a dieta pode não apenas alterar o microbioma da mama, mas também os tumores do câncer de mama em modelos animais8.

“A obesidade e a dieta pobre muitas vezes andam de mãos dadas, alterando a sinalização metabólica e, portanto, impactando o risco e consequências do câncer de mama”, escreveram os pesquisadores. 

Em estudos anteriores, os pesquisadores haviam demonstrado que as populações de bactérias da microbiota mamária, além daquelas do microbioma intestinal, eram afetadas por diferentes tipos de dieta. Entretanto, ainda restava um importante questionamento: “o microbioma do intestino e da glândula mamária poderiam modular os efeitos da dieta sobre o câncer de mama?”. 

Para entender a relação entre o microbioma, a dieta e o risco de câncer, inicialmente os pesquisadores observaram que os animais que consumiam uma dieta rica em gordura  apresentavam maior incidência de tumores de mama, além de desenvolverem tumores rapidamente e ainda maiores do que os tumores observados no grupo que  consumia uma dieta com baixo teor de gordura.

Os pesquisadores então realizaram transplantes fecais, contendo os microrganismos intestinais dos indivíduos que seguiam uma dieta rica em gordura, para os camundongos que seguiam uma dieta pobre em gordura. Surpreendentemente, os pesquisadores observaram que os camundongos que consumiam pouca gordura e receberam o transplante fecal acabaram desenvolvendo aproximadamente a mesma quantidade de tumores de mama do que os ratos que consumiram a dieta com alto teor de gordura.

Tendo em vista os resultados encontrados e o número de estudos que têm demonstrado associação entre dieta, microbiota e câncer, ao olhar para o futuro, os pesquisadores esperam que seja possível reduzir os riscos de desenvolvimento de câncer de mama através da dieta, realizando intervenções dietéticas que beneficiem não apenas a saúde, mas também a microbiota.

Imagem: Freepik


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Referências

1. Santos, M. D. O. & De Oliveira Santos, M. Estimativa/2020 – Incidência de Câncer no Brasil. Revista Brasileira de Cancerologia vol. 66 (2020).

2. Rock, C. L. & Demark-Wahnefried, W. Nutrition and Survival After the Diagnosis of Breast Cancer: A Review of the Evidence. Journal of Clinical Oncology vol. 20 3302–3316 (2002).

3. Lee, K., Kruper, L., Dieli-Conwright, C. M. & Mortimer, J. E. The Impact of Obesity on Breast Cancer Diagnosis and Treatment. Current Oncology Reports vol. 21 (2019).

4. Kong, C., Gao, R., Yan, X., Huang, L. & Qin, H. Probiotics improve gut microbiota dysbiosis in obese mice fed a high-fat or high-sucrose diet. Nutrition vol. 60 175–184 (2019).

5. Ley, R. E. et al. Obesity alters gut microbial ecology. Proc. Natl. Acad. Sci. U. S. A. 102, 11070–11075 (2005).

6. Turnbaugh, P. J. et al. An obesity-associated gut microbiome with increased capacity for energy harvest. Nature 444, 1027–1031 (2006).

7. Sen, T. et al. Diet-driven microbiota dysbiosis is associated with vagal remodeling and obesity. Physiol. Behav. 173, 305–317 (2017).

8. Soto-Pantoja, D. R. et al. Diet alters entero-mammary signaling to regulate the breast microbiome and tumorigenesis. Cancer Res. (2021) doi:10.1158/0008-5472.CAN-20-2983.

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