Consumo de alimentos ultraprocessados durante a infância aumenta risco de obesidade na vida adulta, diz pesquisa

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Os ultraprocessados estão cada vez mais na mesa da população, sobretudo sendo consumidos por crianças. Esses alimentos são produtos industrializados prontos, que normalmente são preparados em micro-ondas, e possuem um prazo de validade maior. Os ultraprocessados contêm alta adição de açúcar, sódio, gordura, corantes e conservantes. 

E, para entender os danos à saúde que o consumo desses alimentos pode causar a longo prazo, pesquisadores do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o Imperial College London, no Reino Unido, avaliaram em uma pesquisa inédita o consumo de ultraprocessados da infância até o início da vida adulta, e seu impacto nos indicadores de obesidade. 

Os resultados da pesquisa foram divulgados no Jornal da USP na última quinta-feira, 1º. A pesquisa teve o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).O estudo foi realizado com 9.025 crianças britânicas de 7 anos que foram estudadas até completarem 24 anos de idade. Os resultados revelaram que os indivíduos que ingeriram mais ultraprocessados durante a infância tinham piores índices de obesidade. 

O estudo, publicado na revista médica Jama Network, indica que, quanto maior o consumo dos alimentos ultraprocessados na dieta de crianças, maior e pior é o ganho de peso. Além disso, o artigo chama a atenção para o papel definitivo desses alimentos na infância para a formação de preferências e hábitos alimentares com o objetivo de promover a compra dos produtos. 

Os pesquisadores do estudo ressaltam a necessidade de haver ações de saúde pública para regulamentação da publicidade e marketing na venda de ultraprocessados e da importância de orientar a população sobre os riscos que esses produtos causam à saúde, para combater a crescente obesidade no mundo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a obesidade uma séria epidemia de saúde pública global.

“Hoje, está claro que o consumo de ultraprocessados é o principal fator de piora da qualidade da alimentação, mas, até então não havia um estudo como esse, que permite avaliar a relação entre padrões alimentares baseados nesses produtos e obesidade desde a infância”, disse ao Jornal da USP Daniela Neri, nutricionista, pesquisadora de pós-doutorado do Nupens e coautora do estudo.

O grupo de crianças participantes nascidas na década de 1990, da cidade de Bristol, na Inglaterra, passou a ser avaliado em 1991. Elas foram submetidas a avaliações por medidas antropométricas – como índice de massa corporal (IMC), índice de massa gorda (IMG), peso e circunferência da cintura – coletadas dos 7 aos 24 anos de idade, com um intervalo de três anos por avaliação. As medidas coletadas possibilitaram aos pesquisadores avaliar a evolução do crescimento e da composição corporal, além da progressão de obesidade da infância até o início da fase adulta. 

Para atingir os resultados da pesquisa, os pesquisadores analisaram o consumo alimentar aos 7, 10 e 13 anos de idade, as crianças participantes registravam em diários todos os alimentos eram consumidos em um período de 24 horas durante três dias não consecutivos, incluindo alimentos e bebidas, quantidade consumida e local da refeição. 

De acordo com o Jornal da USP, os dados foram categorizados segundo a classificação NOVA, que descreve os alimentos, não mais pelo conteúdo de nutrientes, mas por quatro agrupamentos que avaliam o grau de processamento industrial. Segundo Neri, a classificação separa os alimentos com base na extensão e no propósito do processamento industrial em que os alimentos foram submetidos antes da aquisição das famílias dos indivíduos.

O primeiro grupo engloba os alimentos in natura ou minimamente processados, que incluem carne, leite, ovos, grãos e um conjunto de alimentos de origem animal ou vegetal que podem ter sido embalados, resfriados e/ou congelados, mas não sofreram adição de ingredientes, nem alterações significantes. 

No segundo grupo estão presentes os ingredientes culinários, que são compostos por azeites, óleos, sal e outros produtos extraídos do grupo anterior para temperar e tornar os alimentos mais saborosos ao paladar. Já o terceiro grupo abrange os alimentos processados, como conservas de legumes ou de pescado e frutas em caldas. No entanto, a grande diferença está no quarto grupo, o dos ultraprocessados, que caracterizam alimentos que não possuem ou quase não possuem alimentos de verdade. Este grupo é composto por refrigerantes, sucos de caixinha, biscoitos recheados, comidas congeladas, macarrão instantâneo e chocolates, por exemplo. 

De acordo com a pesquisadora, “hoje são embaladas de uma maneira muito atraente e promovidas por estratégias de marketing muito sofisticadas e super apelativas, especialmente para crianças, o que pode explicar o consumo exagerado”, completa. 

Ao final da pesquisa, os participantes, já no início da vida adulta, foram avaliados. As informações dividiam os mais de 9 mil indivíduos em 5 grupos classificados de menor para maior consumo de ultraprocessados – em percentual do total de gramas de alimentos consumidos. Os resultados do estudo demonstraram que os adultos que consumiam mais alimentos  ultraprocessados durante a infância pesavam 4 Kg a mais, tinham níveis de Índice de Massa Corporal (IMC) e de percentual de gordura corporal superiores e três centímetros a mais de circunferência da cintura em comparação aos que ingeriam menos ultraprocessados. As crianças que continham mais ultraprocessados em suas dietas não apenas ganhavam mais peso, mas apresentavam pior ganho de peso, causando maiores danos à saúde. 

Daniela Neri destaca que a proporção desses “alimentos” na dieta das crianças britânicas é muito alta, constituindo mais de 60% das calorias da dieta. De acordo com a pesquisadora, as preparações culinárias baseadas em alimentos frescos deveriam ser base de uma alimentação saudável e fundamentais para promover o crescimento adequado das crianças. Ela ainda atribui a publicidade destinada às crianças como um dos principais responsáveis por essa  substituição, e destaca que deve ser melhor regulamentada. 

Durante a infância, a formação de hábitos alimentares tem efeito duradouro ao longo da vida de uma pessoa e, por isso, a preferência das crianças por produtos que não são alimentos de verdade preocupa os cientistas. “Esses produtos são desenhados para serem consumidos rapidamente, podem levar ao vício, perda de controle e escravização do paladar, e, quando consumidos no período de formação do paladar, o efeito é prejudicial a longo prazo”, completa Neri.

A pesquisadora aponta que, essa problemática é uma questão coletiva, e que exige atuação do governo em nível de saúde pública: “Os guias alimentares precisam deixar bem claro os malefícios da alimentação baseada em ultraprocessados”. E conclui: “Mas é também importante que o país avance em políticas e ações para desincentivar o consumo de alimentos ultraprocessados, como a taxação desses produtos e restrição do marketing”, completa.


Foto: Freepik


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