Apneia do sono: o que é e como identificar


Dormir é fundamental para manter o organismo e a mente saudáveis. É durante um sono reparador que o corpo trabalha realizando funções importantes para a sua restauração, como reparo dos tecidos, regulagem do metabolismo, tratamento do sistema imunológico, reposição das energias, entre outros. Quando uma pessoa não consegue ter um sono de qualidade, surge o cansaço, a irritabilidade, a falta de produtividade e a sonolência diurna.

O sono possui um ciclo que é separado em quatro fases: N1, N2, N3 e REM (Movimento Rápido dos Olhos, na sigla em inglês) ou fase 4. 

Fase N1: é o estágio do sono mais leve, do adormecimento, em que podemos despertar com facilidade. Essa fase corresponde a 5% do tempo de sono.
Fase N2: é a fase do sono intermediário. Gasta em média de 45 a 55% do tempo de sono.
Fase N3: esta fase compreende o sono profundo. Normalmente corresponde de 15 a 20% do tempo total do sono.
Fase REM: é a parte mental do sono, onde há um maior relaxamento do corpo. Na fase REM, ocorrem os sonhos, a consolidação da memória, o processo de recuperação das células e órgãos, liberação de hormônios, equilíbrio metabólico, partes da imunidade são produzidas nesse momento, que geralmente corresponde de 20 a 25% do sono. 

E quando há esse relaxamento maior do corpo durante o sono REM, ocorre a apneia, que é a parada da respiração acima de 10 segundos durante o sono. A médica Ingrid Wendland Santanna, otorrinolaringologista pela Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF) e presidente do Conselho Consultivo da Associação Gaúcha de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (Assogot-CCF), explica que as apneias durante o sono REM são caracterizadas por pausas respiratórias decorrentes de obstruções na garganta, uma vez que há o relaxamento maior dos músculos, impossibilita a passagem fluida do ar para as vias aéreas.

A Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS) está entre os principais distúrbios relacionados à má qualidade do sono, sendo um sério problema de saúde. Esse distúrbio pode acometer qualquer pessoa, inclusive crianças, e está associado a diversas causas como:

  • Desvio de septo;
  • Maxilar inferior encurtado – quando o queixo é muito para trás, e acaba empurrando a língua e tapando a garganta;
  • Aumento das amígdalas e dos adenoides;
  • Excesso de peso – IMC acima de 25;
  • Circunferência cervical acima de 40cm;
  • Uso de determinados medicamentos como relaxantes musculares;
  • Tabagismo;
  • Uso excessivo de álcool.

A otorrinolaringologista esclarece que até cinco apneias no período de 60 minutos (uma hora) é considerado normal. No mesmo período, quando ocorre de cinco a 15 apneias, considera-se síndrome da apneia obstrutiva do sono leve; de 15 a 30 apneias, a síndrome é moderada; e acima de 30, grave.

Principais sintomas

Para identificar a apneia obstrutiva do sono, os familiares e o paciente devem estar atentos aos seguintes sintomas:

Durante o sono

  • Dormir com a boca aberta;
  • Ressecamento na boca e na garganta ao acordar;
  • Babar enquanto dorme;
  • Paradas respiratórias;
  • Ronco;
  • Sono agitado;
  • Respiração ruidosa.

Ao longo do dia

  • Afeta a produção da criatividade, 
  • Memória e concentração;
  • Altera o humor, pessoa fica mais irritada;
  • Tem mais ansiedade; 
  • Sonolência diurna;
  • Dor de cabeça matinal.

Realizando o diagnóstico

Através de um exame chamado polissonografia é analisado por meio da medida de parâmetros como atividade respiratória, muscular e cerebral durante o sono do paciente. Ingrid, também professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC) e ex-presidente da Assogot-CCF, esclarece que o objetivo é avaliar se o paciente teve as fases adequadas no tempo adequado de sono, além de avaliar a característica das apneias, se foram mais longas, por exemplo, visto que para ser classificada apneia, são necessários no mínimo 10 segundos de interrupção da respiração.

“Temos paciente que ficam até um minuto sem respirar, uma apneia extremamente longa, e isso mostra a gravidade do caso. A gravidade é o número de apneias, como também a duração e os períodos com baixa oxigenação. É um conjunto de fatores”, explica.

Como tratar

O tratamento para a apneia obstrutiva do sono deve estar associado à causa, variando de um paciente para o outro. Isto é, conhecer a origem do problema que desencadeia o distúrbio é fundamental para obter um tratamento que possa controlar as apneias. 

Quando o indivíduo é acometido pelo aumento das amígdalas e adenoides, desvio de septo ou demais alterações anatômicas, por exemplo, é possível realizar um tratamento cirúrgico, aponta Ingrid Santanna. Se a pessoa for obesa, a recomendação é realizar atividades físicas e ter acompanhamento nutricional, em alguns casos requer cirurgia bariátrica.

Além disso, segundo a otorrinolaringologia, quando se trata de uma síndrome leve, existem tratamentos com fonoaudiólogas, em que são realizados exercícios para a musculatura do palato mole – tecido macio que constitui a parte de trás do céu da boca – com o objetivo de reforçar a região e manter a via aérea aberta durante a noite. Outro profissional que pode auxiliar no tratamento de condições que causam apneias do sono são os dentistas, que realizam o procedimento de avanço mandibular e demais aparelhos ortodônticos necessários para corrigir uma mandíbula inferior retraída.

Entre os inúmeros tratamentos possíveis para a apneia obstrutiva do sono, está o uso de um aparelho de assistência respiratória durante a noite, conhecido como CPAP (pressão positiva contínua nas vias aéreas, na sigla em inglês). O CPAP é um mecanismo que, através de um tubo e uma máscara que cobre a boca e o nariz, ligado a um aparelho de pressão positiva, mantém o fluxo de ar constante para as vias respiratórias.

“O tratamento depende de cada caso, idade, condições físicas, gravidade, do que o paciente consegue se adequar. Para casos graves, até a traqueostomia é necessária. O tratamento é personalizado e individual”, ressalta a presidente do Conselho da Assogot.

Riscos para a saúde

Por causar paradas respiratórias e prejudicar a qualidade do sono, a apneia obstrutiva do sono apresenta riscos maiores para a saúde. Ingrid explica que pela falta de oxigenação há um esforço do sistema cardiovascular para manter a via aérea aberta e, assim, obter uma ventilação fluida e manter uma oxigenação adequada. Com isso, através desse esforço todo, pode ocorrer arritmia cardíaca, aumento da pressão arterial, alterações metabólicas e acidente vascular cerebral (AVC), por exemplo).

Diferenças entre apneia e hipopneia

De acordo com Ingrid, a apneia é a parada total da passagem de ar acima de 10 segundos. No caso da hipopneia, a parada respiratória é parcial, de ao menos 30% do fluxo aéreo, além de estar associada a um despertar e uma baixa da oxigenação de 3 a 4%.

Todo ronco é indicativo de apneia do sono?

A otorrinolaringologista da ABORL-CCF aponta que pode existir o ronco sem repercussão cardiovascular, sem apneia, que é a respiração ruidosa. No entanto, é pouco comum o paciente que tem a apneia sem o ronco. Nesses casos, caracteriza-se a apneia de causa chamada central. “Mas o ronco é um sinal de alerta, que normalmente evolui para a apneia do sono”, enfatiza.

Quando o paciente deve procurar um especialista?

Ingrid conta que atualmente existe uma formação específica para especialista em sono, que é uma residência médica em Medicina do Sono. Além do mais, profissionais como otorrinolaringologistas, pneumologistas, cardiologistas, neurologistas, psiquiatras, entre outros, também podem se especializar na área do sono.

Ao identificar qualquer alteração no sono, é importante procurar um especialista. Quando os familiares do paciente perceberem que durante o sono a pessoa possui paradas respiratórias, ronco cada vez mais alto e persistente, ou quando o próprio paciente acorda cansado, sente que não dormiu o suficiente e tem um aumento da sonolência diurna, por exemplo, é hora de procurar um profissional para investigar melhor a condição e obter um diagnóstico preciso. 

“A apneia fraciona o sono e ele deixa de ser reparador, e acaba sendo um sono que não tem qualidade adequada. Sempre que tem alterações no sono, seja insônia, apneia, sempre que o sono não está sendo como se espera, deve procurar um especialista porque uma boa orientação pode ajudar os pacientes. É isso que importa, podermos favorecer e ajudar os pacientes”, conclui a otorrinolaringologista Ingrid Wendland Santanna.


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Matéria também publicada no Blog Bem Panvel.

Bruna Faraco
Jornalista formada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), radialista e fotógrafa.

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