Saliva do mosquito da dengue pode ajudar a tratar doenças inflamatórias intestinais

0
66

Um estudo liderado pelo Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo (USP) indicou que uma pequena proteína, chamada peptídeo, encontrada em maior quantidade na saliva de mosquitos fêmeas de Aedes aegypti, demonstrou ser eficaz para o tratamento da colite – doença inflamatória do intestino. 

O mosquito, popularmente conhecido por mosquito da dengue, é o transmissor de doenças como dengue, zika e chikungunya. A pesquisa foi realizada em parceria com a Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP, Instituto Butantan e os Institutos Nacionais de Saúde (NIH), dos Estados Unidos.

A pesquisa, realizada em camundongos, revelou que a administração terapêutica de uma versão sintética do peptídeo nos roedores doentes reduziu a leucocitose, que acontece quando há alguma infecção em curso no organismo; a atividade dos macrófagos, que são células de defesa do organismo do hospedeiro; e a expressão de citocinas, substâncias que participam da inflamação e fazem a comunicação com componentes do sistema imunológico.

Além disso, os níveis de óxido nítrico no intestino dos animais também apresentou redução, o que resultou em uma melhora dos sinais clínicos. O óxido nítrico é um radical livre sintetizado por várias células do nosso organismo, especialmente macrófagos, e desempenha papel importante em doenças inflamatórias intestinais, como doença de Crohn e colite ulcerativa. 

De acordo com os pesquisadores, os resultados ainda mostraram que o peptídeo puro tem sua expressão aumentada em 30 vezes nas glândulas salivares de mosquitos fêmeas em comparação aos machos, e sua secreção na saliva do inseto induz à produção de anticorpos específicos em animais expostos à picada dos mosquitos.   

Considerando os achados descritos e pelo fato de não haver moléculas semelhantes em outros mosquitos, os pesquisadores do estudo denominaram a molécula de Aedes-specific MOdulatory PEptide (AeMOPE-1), na tradução livre “Peptídeo Modulador Específico do Aedes”.

Inúmeros estudos, ao longo de três décadas, seguem estudando a saliva do mosquito Aedes aegypti, demonstrando, inclusive, resultados em reações alérgicas, agregação plaquetária, vasoconstrição e coagulação sanguínea. Porém, segundo os cientistas, até a conclusão da pesquisa, havia poucas informações sobre as atividades biológicas da saliva sobre a inflamação e a imunidade do hospedeiro.  

“Utilizamos os bancos de dados de sialotranscriptomas [conjunto de transcritos – RNAs mensageiros – da saliva do mosquito] como um ponto de partida para identificar novas moléculas como a AeMOPE-1, cuja função era até então desconhecida”, explicou ao Jornal da USP a bióloga Priscila Lara, primeira autora do estudo.  

Etapas da pesquisa

A primeira etapa da pesquisa consistiu em mostrar, in vitro, se o peptídeo AeMOPE-1 estava presente na saliva do mosquito, visto que as únicas informações consistentes eram as de um banco de dados disponível para pesquisadores. 

Após as análises indicarem que ela está mais presente nas glândulas salivares de fêmeas adultas do que nas de machos adultos, os pesquisadores identificaram que o peptídeo secretado naturalmente na saliva do mosquito foi capaz de desencadear uma produção de anticorpos específicos em animais expostos às picadas dos mosquitos.

A bióloga esclarece que as atividades imunomoduladoras putativas (hipotetizadas in silico) também foram investigadas. “Em estudos anteriores, o nosso grupo obteve fortes evidências de que a saliva bruta do mosquito modula diferentes células do sistema imunológico. Por isso, o próximo passo foi ver se o peptídeo sintético reproduzia algumas dessas atividades em ensaios in vitro”, esclarece Priscila ao Jornal da USP.

Além disso, foram testadas as possíveis atividades biológicas do peptídeo em linfócitos T (células responsáveis pela resposta imune adaptativa), mastócitos (células dos tecidos conjuntivo e de mucosa que participam das reações inflamatórias) e células dendríticas (células responsáveis pelo processamento e apresentação de antígenos), sem resultados satisfatórios. 

Por outro lado, nos macrófagos, a AeMOPE-1 inibiu a produção de óxido nítrico e citocinas envolvidas na inflamação. De acordo com o Jornal da USP, estudos anteriores mostraram que o óxido nítrico e seus metabólitos estão presentes no intestino, no plasma e na urina de pacientes doentes, e sua superprodução está associada ao aumento da inflamação gastrointestinal.  

Frente aos resultados demonstrados, os pesquisadores do estudo optaram por testar, ainda em camundongos, o efeito terapêutico do peptídeo produzido em laboratório (sintético) em animais com doença inflamatória intestinal induzida.

Os camundongos doentes foram divididos em dois grupos: o que recebeu o peptídeo sintético AeMOPE-1 e o que recebeu uma substância diluente do peptídeo. 

Os roedores que foram tratados com AeMOPE-1 apresentaram melhora clínica da doença quando comparados aos do grupo que não recebeu o peptídeo. Em uma avaliação mais detalhada, os sintomas apresentados nos animais tratados com AeMOPE-1 indicou menos sangramento e diarreia e melhor consistência de fezes.

Além disso, o tratamento com o peptídeo sintético diminuiu, também, a leucocitose nos camundongos doentes e, consequentemente, houve redução de linfócitos, monócitos e neutrófilos. 

A bióloga ainda avaliou a expressão de citocinas presentes no intestino dos animais. As análises mostraram uma diminuição de IL-6 (considerada um dos principais mediadores da fase aguda da inflamação), IFN-γ (citocina capaz de ativar macrófagos) e CCL2 (quimiocina capaz de recrutar uma série de células inflamatórias, incluindo macrófagos) nos animais que receberam AeMOPE-1. Também houve redução notável na atividade de macrófagos e produção de óxido nítrico no cólon de camundongos tratados com AeMOPE-1, indicando que o peptídeo pode influenciar o acúmulo e/ou funcionalidade dessas células no intestino inflamado.
Os pesquisadores pretendem realizar as próximas etapas de ensaios pré-clínicos e clínicos. A pesquisa faz parte do trabalho de doutorado de Priscila Lara, orientada pelo professor do ICB Anderson de Sá-Nunes.  O artigo do estudo foi publicado na revista Frontiers in Immunology.


Foto: Pixabay
*Com informações do Jornal da USP


LEIA MAIS
Em decisão histórica, OMS aprova primeira vacina contra malária
Síndrome do intestino irritável: saiba o que é, quais os sintomas e tratamento adequado

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here