Pesquisa com macacos abre caminho para vacina contra a esquistossomose

0
91

A esquistossomose, mais conhecida como “barriga d’água”, é considerada uma das 17 doenças tropicais negligenciadas (DTNs) no mundo, sendo ainda um importante problema de saúde pública no Brasil. Estima-se que essa doença parasitária afete cerca de 200 milhões de pessoas no mundo, sendo quase metade crianças. Por ano, são aproximadamente 200 mil mortes. 

O único medicamento usado no tratamento da doença foi descoberto há mais de 40 anos. No entanto, uma pesquisa publicada na revista científica Nature Communications mostra um caminho para o desenvolvimento de novas terapias para a esquistossomose, incluindo uma vacina contra essa parasitose. 

O estudo, realizado por cientistas do Instituto Butantan, da Universidade de São Paulo (USP) e de instituições internacionais, descobriu o mecanismo pelo qual o macaco rhesus (Macaca mulatta) desenvolve naturalmente uma resposta imune duradoura contra a doença. Essa resposta leva à autocura da patologia após um primeiro contato com o parasita Schistosoma mansoni, além de possibilitar que o organismo do animal reaja com mais rapidez a uma segunda infecção.

Apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a pesquisa identificou nove genes da via de autofagia do parasita inibidos pela defesa imune do primata, impedindo que o Schistosoma se multiplique e contamine o hospedeiro. 

“A via de autofagia, executada por meio dos lisossomos que fazem a ‘limpeza’ das células, é afetada no parasita pelos anticorpos do macaco. Essa via é importante para a fisiologia basal do Schistosoma mansoni e não havia sido demonstrado seu envolvimento na autocura. Pelo contrário, foi pouco estudada até agora”, esclarece Murilo Sena Amaral, pesquisador do Laboratório de Parasitologia do Instituto Butantan e primeiro autor do artigo, em entrevista à Agência FAPESP.

O professor da USP e cientista do Butantan Sergio Verjovski-Almeida, coordenador do estudo, destaca que a autofagia é uma importante via de remodelamento dos tecidos do parasita durante seu ciclo de vida, principalmente quando este passa do estágio de cercárias para a fase adulta. 

“Localizamos mais de cem genes afetados, porém, de vias diferentes. Não quer dizer que não sejam importantes, mas, quando se encontra nove dos dez genes da mesma via sendo atingidos, é possível dizer que há uma evidência muito grande de que esse caminho pode ser a chave para a vacina”.

Em humanos, a esquistossomose tem cura quando o diagnóstico é feito na fase inicial da doença, eliminando o parasita do organismo e evitando o surgimento de complicações, como o aumento do fígado e do baço, além de anemia. No entanto, contrário ao macaco rhesus, a pessoa não adquire imunidade, podendo ser infectada novamente.

A pesquisa

Os pesquisadores analisaram 12 macacos rhesus, que foram infectados com 700 cercárias de Schistosoma mansoni. Eles realizaram o acompanhamento entre a cura e o chamado segundo desafio, durante 42 semanas após a primeira infecção.

Os primatas, após a exposição a uma reinfecção por 700 cercárias, foram monitorados por mais 20 semanas – até 62 semanas após a infecção inicial. Os pesquisadores coletaram sangue para estimativa da carga de vermes usando o nível de antígeno anódico circulante (CAA, sigla em inglês), para medida de marcadores inflamatórios e hematologia. Além disso, as fezes dos animais também foram analisadas para determinar o número de ovos por grama. Ao final, foi analisada a carga real do verme em cada primata.

Os cientistas, ainda, fizeram ensaios in vitro com plasma contendo anticorpos do macaco e incubaram com parasitas jovens, detectando a morte deles. “Fizemos os ensaios para avaliar a expressão gênica e marcas da cromatina, que regulam os genes expressos a partir do DNA. Com isso, chegamos aos nove genes da via de autofagia”, explica Amaral.

Após o acompanhamento dos níveis na corrente sanguínea do antígeno derivado do parasita, os resultados indicaram que a partir da décima semana uma infecção estabelecida com Schistosoma mansoni é eliminada, gerando resistência à reinfecção.

Os pesquisadores identificaram que os perfis de anticorpos sugerem que a proteção mediadora de antígenos são os produtos liberados do desenvolvimento de esquistossômulos. Na cultura, eles são mortos pela adição do plasma do macaco, coletado a partir da oitava semana após a infecção, e ainda mais eficientemente com plasma da reinfecção.

Além disso, os esquistossômulos cultivados perdem marcas de ativação da cromatina e mostram diminuição da expressão de genes relacionados aos lisossomos envolvidos na autofagia.

O grupo de cientistas agora está trabalhando na identificação dos alvos dos anticorpos. A partir da identificação desses alvos, o próximo passo é testá-los como candidatos à vacina.


Foto: Freepik


LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here