Inteligência artificial: sistema criado na USP identifica sinais de depressão nas redes sociais


A inteligência artificial está cada vez mais presente em diferentes áreas, sobretudo a da saúde. Agora, terapeutas, psicólogos e psiquiatras poderão contar com uma nova ferramenta para auxiliar no tratamento de seus pacientes. Isso porque cientistas da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram um sistema que utiliza inteligência artificial para identificar sinais de depressão nas redes sociais.

O sistema, criado durante a pesquisa de doutorado realizada por Felipe Giuntini, no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP,  em São Carlos, é capaz de avaliar a saúde mental dos usuários por meio da interpretação de textos e emojis que são publicados nas redes sociais. 

A depressão é um transtorno mental caracterizado por um conjunto de condições associadas às mudanças de humor, como tristeza profunda, angústia, pessimismo, baixa autoestima, que afetam a vida do paciente. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), em todo o mundo, estima-se que mais de 300 milhões de pessoas sofram com esse transtorno, independente da idade. 

No Brasil, de acordo com a última Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada em 2019 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 16,3 milhões de pessoas sofrem com depressão. A faixa etária com maior proporção de diagnósticos confirmados foi a de 60 a 64 anos, enquanto o menor percentual foi obtido na de 18 a 29 anos de idade. 

Entenda o sistema

A tecnologia é composta por uma série de códigos de computador – os chamados algoritmos – que foram testados para analisar o comportamento de 415 mil usuários da rede social Reddit. Essa etapa da pesquisa teve como foco “treinar” a tecnologia, fazendo com que ela determine se uma pessoa apresenta comportamentos depressivos. Históricos de até 10 anos de postagens foram avaliados, permitindo uma preparação robusta dos algoritmos, que podem ser aplicados em qualquer rede social.

Após os testes, os principais resultados obtidos nas análises foram os seguintes: usuários com depressão tendem a se aproximar de quem têm o mesmo problema, comentando e interagindo, por exemplo, com posts de teor negativo. Além disso, o sistema também identificou, a partir das palavras e expressões que eram compartilhadas, os sentimentos mais presentes entre os depressivos, como: vergonha, culpa, tristeza e nervosismo. Por fim, foi identificado que os usuários com o transtorno ficavam pelo menos três dias sem postar nas mídias sociais após terem compartilhado algum conteúdo que apresentava sentimentos de culpa.

Diferentemente dos métodos conhecidos na literatura científica, que focam apenas na classificação de postagens isoladas para determinar se elas são depressivas, a tecnologia criado pelo pesquisador engloba a análise de um conjunto de publicações ao longo do tempo, o que é fundamental para que os profissionais de saúde acompanhem a evolução de seus pacientes durante o tratamento, verificando possíveis mudanças de humor. 

Os novos algoritmos também consideram, nas análises, aspectos da personalidade do usuário, além do contexto da publicação para classificar suas características emocionais, o que permite uma avaliação mais precisa do conteúdo publicado. Além disso, a plataforma também consegue prever com 83% de precisão qual a tendência de comportamento das pessoas em postagens futuras. 

“O constante crescimento do uso e compartilhamento de dados em redes sociais tem fornecido oportunidades para o desenvolvimento de soluções inteligentes capazes de compreender o comportamento humano online, uma vez que os usuários compartilham aspectos sociais, sentimentos e opiniões diariamente, facilitando estudos na área conhecida como computação afetiva”, explica o Giuntini, que foi orientado pelo professor Jó Ueyama, do ICMC. 

Os cientistas do Instituto apontam que o novo sistema poderá ser utilizado como um aplicativo de celular ou como um programa de computador. Eles estão abertos a possíveis parcerias para que a tecnologia seja implementada no mercado. 


Foto: Freepik


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Bruna Faraco
Jornalista formada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), radialista e fotógrafa.

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